Forja dos tempos

Era noite de ano novo em Nova Parnasis e os fogos de artifício formavam uma sinfonia de formas no céu estrelado.
Marcus dirigia o pequeno automotivo voador que ainda pagava duras parcelas quando recebeu mais uma mensagem holográfica:
“Hey Marcus! É o Jona, cadê você cara? Disse que ia vir pra festa” viu que o ex-parceiro usava as roupas cintilantes dessa época de festa no pequeno holograma. Mas o ex-policial não tinha porque comemorar, então desligou o monitor e continuou dirigindo por entre os arranha-céus negros.
Quando aterrissou no segundo andar do edifício da Neo (a terceira mais alta construção da cidade) foi prontamente recebido pelo robô serviçal.
“Bem vindo senhor Marcus Wrex” o humanoide era assustadoramente parecido com um ser humano, se não fossem suas expressões faciais tão realistas que tornavam a emulação algo grotesco aos olhos do alto homem de jaqueta preta. “Falam que sinto o Uncanny Valey das coisas em exagero…é como chamam achar eles ruim agora”
“Olá Seis” disse entrando sem aguardar qualquer outro protocolo do androide.

Entrou no elevador, ficou de frente para o lado espelhado e colocou seus óculos escuros. Com um simples gesto da mão direita ativou o monitor de notícias do espelho.
“Céu limpo em Nova Parnasis é nova temática escolhida pela Comissão. Confiram a situação climática da semana…” dizia o canal com imagens muito bonitas de um céu limpo e azul ou com estrelas cintilantes sem poluição.

Como a Comissão podia prever o clima com tamanha precisão? Qualquer um que tenha sequer se perguntado e feito uma pesquisa rápida ou que tenha subido em um dos maiores arranha-céus da cidade sabia. O projetor só funcionava até uma certa altura, pois a partir do 50º andar era possível ver o céu verdadeiro: um negrume com aparência tão maléfica quanto suas propriedades químicas. A cúpula mantinha a cidade protegida desse gás todo.

 
Encontrou Victor no laboratório , sabia que o velho não tinha família mas não achava que ele o chamasse naquela noite.
“Olá doutor. Sua ligação foi meio…repentina” Marcus puxou um banco de madeira e se sentou. Podia ver todas as luzes neon da cidade dali de cima através da grande janela de vidro.
“Me perdoe Marcus, é o mais dedicado assistente que já tive. É muito importante mas caso ache melhor deixar para outra…”
“Eu sou uma cobaia na verdade, mas Victor nunca me viu desse jeito” pensou mas apenas respondeu polidamente: “Não estava fazendo nada importante doutor, apenas tentando fazer essa noite passar rápido”.
“Somos amargurados demais para festas não é filho?” os dois sorriram tristemente. Eram muito parecidos em suas próprias carreiras e destinos.
Um era o policial mais respeitado da cidade e grande candidato a se tornar chefe da patrulha e o outro era o cientista que havia descoberto como sintetizar um gás que serviria para purificar a toxicidade do mundo exterior. Ambos falharam. O policial se virou contra seus homens, matou um oficial em afirmada auto-defesa e agiu violentamente por vingança, mas o cientista não só foi incapaz de criar o gás ideal como matou toda a sua equipe em um acidente de laboratório.
 
Se uma das quatro grande corporações de Nova Parnasis, a Neo, não tivesse interferido em ambos os casos teriam sido jogados para o mundo devastado do lado de fora. Agora Victor tentava criar um traje capaz de sobreviver a toxicidade exterior e Marcus era a cobaia para o uso dos protótipos. Os dois lidavam com elementos quimícos perigosos e constante risco de vida.
“Eu estou terminando o que talvez seja o último protótipo, mas…mas descobri algo preocupante”
“O que é Victor?”
“O-O gás tóxico é sintético…”
“Disso todos sabem” A origem do gás causado pela última guerra mundial era muito clara para 10 entre 10 habitantes da cidade.
“…mas ele também é facilmente dispersado”
“Em pequenas quantidades, você mesmo me disse isso” Marcus não sabia onde Victor queira chegar.
“Mas eu…mas eu tomei a liberdade de usar uma quantidade dez vezes maior que o permitido. E a velocidade de dispersão foi a mesma”
“Victor, que loucura quer supor?” colocou as mãos sobre a face e olhou para o chão. “Então acha que o gás todo que está do lado de fora da cúpula já deveria ter dispersado depois de tantas décadas?”
“S-Sim, eles podem estar ainda sendo produzidos por alguém para…não sei para que”
“Por favor doutor, não diga isso a ninguém. Se um membro do Conselho te ouve falar isso vão te exilar. Conspiração é um crime considerado hediondo para os agentes”
“Temo que já tenha dito por acidente filho” O motivo do sorriso triste do velho agora era bem claro.
“O que? Então precisa sair daqui…” Marcus se ergueu para o doutor e segurou em seu braço mas o cientista não se moveu.
“Estou cansado filho, não me deixe arruinar sua vida. Sou um fardo mas quero que pegue meu legado”
“Não tenho nada para arruinar Victor”
Victor abriu a gaveta de sua mesa e lhe entregou algo parecido com um cinto: era cinza e era formado por quadriculados semelhantes a botões de alguma máquina grande, seu centro possuia uma interface com luzes vermelhas que iam se formando em períodos aleatórios.
“Leve para um lugar seguro e o guarde bem. Mas caso precise usar, caso esteja em perigo, deve apertar esse botão no centro dele e o primeiro botão grande da esquerda. Consegue se lembrar depois?”
“Deixe disso, vamos!” tentou recusar o cinto e levar o homem a força mas ele encarou a janela de vidro e ficou mudo-estático.
“A nave da polícia, já posso ve-la daqui. Vá logo filho ou então irá junto comigo para o inferno”
Relutantemente Marcus decidiu sair e pegar o elevador.
 
Quando chegou no andar de sua nave os fogos artificiais mantinham sua sinfonia festejante e as luzes de neon se mantinham indiferentes a tudo. O estrondo e som de vidro se quebrando foram as únicas coisas que ouviu no lado de fora mas o som reverberou em seus ouvidos até mesmo dentro de sua nave.
 
“Laura, Iria…agora perdi também o amigo. Droga, droga, droga!” socava o volante e fazia sacudir a nave em seu curso pelos prédios. A mulher havia sido morta com a filha no colo por ter feito o mesmo tipo de suspeita e questionamento.
“Por que eles nos reprimem assim Marcus? Nunca pensou nisso?” ela lhe diziao tempo todo desde que ela havia entrado para o Conselho como secretária. Agora estava tão morta quanto Victor poderia estar na manhã seguinte.
 
O monitor da nave acendeu-se avisando ter uma nova mensagem.
“Jona de novo? Vai pro inferno!” disse tentando desligar o aparelho mas exibiu a mensagem mesmo assim.
“Senhor Marcus, estacione no prédio mais próximo ou força letal será usada contra você” A voz era a mesma do dia em que Laura foi morta pelos agentes. Obedeceu mas antes disso colocou o cinto que Victor lhe deu “É bom isso funcionar doutor”
 
A nave da polícia apareceu logo em seguida tripulada por cinco agentes em suas roupas negras e óculos escuros.
“Senhor, os documentos por favor” disse o líder dos policiais. Marcus respondeu apenas erguendo o cartão, o agente analisou o holograma de dados do ex-policial e devolveu. “Tem de vir conosco. É suspeito de colaborar com a subversividade e conspiração”
“Não pretendo ser contra o Conselho colega, me deixe ir” a ameaça soou vazia mas Marcus não pestanejou ao quebrar o braço do agente que tentava algema-lo com uma cotovelada repentina. “Não vou morrer antes de quebrar os ossos de vocês seus porcos”
Uma raiva e fúria esquecidas a tanto tempo em Marcus despertaram de forma tão instantânea que ele somente se deu conta do que fazia quando havia derrubado mais dois dos policiais e saltado para o prédio em construção a frente. Seu pouso foi amenizado graças a espuma recém armazenada no quadragésimo andar.
 
Em poucos minutos os agentes chamaram reforços, o prédio estava cercado e os policiais procuravam pelo ex-policial. Mas procuraram somente por alguns minutos e logo apelaram pelo método mais popular: robôs de combate não hesitavam, não sentiam dor e tinham visão de calor. Marcus nunca gostou dos agentes do Conselho nem mesmo quando ainda era policial.
Marcus sentia as pernas queimando por conta da longa subida dos degraus e quando atingiu o último andar antes do terraço sabia que não havia saída. “O que tem a perder?” Decidiu cortar um dos cabos recém instalados e atear fogo no líquido altamente inflamável que esguichava e enpoçava o chão.
“Que tipo de doido eu virei agora? Tenho que me render…não, não posso parar. Não dá mais”. Aos poucos, se esgueirando pelos corredores do prédio que cada vez mais se inflamava, ele começava a se dar conta de tudo o que o rodeava desde o ínicio. “Eu só ia pra casa. Minha mulher só queria entender o que vocês faziam. Minha filha só estava no colo da mãe quando vocês as mataram…”
 
Marcus saltou sobre um dos andróides humanoides e o derrubou sobre as chamas, mas parte do líquido esverdado inflamado voou sobre ele chamas subiram para suas mãos. O fogo rapidamente se espalhou para o resto dos braços e logo o consumiria.
“Não! Não é agora! NÃO!” pressionou o botão do cinto instintivamente e caiu de joelhos apertando o segundo botão no meio da queda. Sentiu as chamas engoli-lo vivo, mas não sentiu calor.
 
 
Os robôs não conseguiam mais diferenciar o fogo do calor humano, obrigando os agentes a subir os andares eles mesmos.
“O suspeito subiu até o penúltimo andar e ateou fogo. Precisamos da equipe de bombeiros aqui e de mais homens no prédio” o agente dizia em seu comunicador holográfico acoplado em seu relógio de pulso.
“Positivo, suporte está a trinta cliques” respondeu o comunicador.
 
As chamas tomavam boa parte do salão vazio e tudo o que podia se ver era o clarão avermelhado do fogo…e um borrão vermelho-escuro no formato de uma pessoa.
“Alto Senhor Marcus! Parado!”
O vulto respondeu com um múrmurio fantasmagórico e uma voz abafada incompreensível.
Os agentes ficaram paralizados ao ver o que se aproximava. Marcus tinha o corpo inteiro coberto em vermelho escuro, como se fosse uma armadura, e seu rosto aos poucos estava se tornando também em vermelho sangue. Sua boca já estava dentro de uma carapaça parecida com a de um inseto e seu dorso brilhava como brasa. “A justiça das chamas chegou hoje” pensou Marcus na loucura enfurecida.
O rosto se tornou um conjunto de veias saltadas e vermelhas e em seguida coberto por um capacete em formato de inseto de cor vemelha, sendo que apenas seus olhos grandes eram negros.
 
Ele saiu das chamas não mais como Marcus, o ex-policial. Ele saiu como Marcus, alguém refeito por estas chamas. “Forja” se lembrou das histórias da Idade Média que ouvia quando era criança.
“Marcus! Marcus é você?” um dos policiais requeridos havia chegado e era Jona, o ex-parceiro, ainda vestido de vermelho-ano-novo.
“Meu nome é Forja” disse Marcus num tom tão gutural que parecia reverberar as estruturas do prédio junto com as chamas.
 
Os agentes dispararam com seus revólveres. As balas foram engolidas pelas chamas que a armadura emitia.
Em uma única cotovelada no pescoço do líder dos agentes, Forja arrancou a cabeça e antes dela cair ele já havia chutado dois dos policiais e os atirado através de uma das paredes e os jogado na altura do prédio.
Jona ficou imóvel com seu revólver apontado para o amigo.
 
Rapidamente, Forja matou os outros agentes e ficou cara-a-cara com o ex-parceiro.
Marcus saltou, atravessando o teto, e pulou de prédio em prédio para algum lugar que fosse seguro.
 
 
Marcus estava de joelhos em um beco e olhava suas duas mãos: ambas tinham queimaduras mas ele não sentia dor alguma. “Forja? Mas que raio de idéia foi essa?” E o resto de seu corpo estava intacto.
“O que devo fazer agora Victor? O cinto que me deu…Seria loucura tentar mudar as coisas? Posso mudar algo? Devo ser o primeiro a sobreviver ao Conselho…Laura, o que me disse daquela vez?”
“Uma revolução de cada vez” alguém colocou a mão sobre seu ombro e Marcus se virou para olhar quem era.
Laura estava ainda mais bonita com seus cabelos ruivos e tinha no colo Iria. Ela parecia ter crescido muito desde a última vez que a vira e atrás delas estavam um grupo de pessoas em mantos esfarrapados. “Bem vindo Marcus, meu amado…”

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