Um tambor e seu pequeno baterista

 
“Pa rum pum pum pum…pa rum pum pum pum…pa rum pum pum pum” o pequeno tambor ressoava e o também diminuto garoto acompanhava com um canto tímido. “Come they told me, pa rum pum pum pum” Bake sentia frio naquela manhã cinzenta e os trocados que recebeu até aquele momento não davam nem para o pão duro do dia anterior.
Seguiu com sua música durante toda a manhã e parte da tarde até seu estomago roncar tão alto quanto seu tambor. Conseguiu o suficiente pra comer algo quase estragado mas a maior parte de seus ganhos ainda era o desprezo que a maior parte dos bateristas recebiam em Orquestria.
“A quantidade de energia que um baterista pode gerar sozinho é uma piada. A batata que eu compro faz mais energia…” ouviu alguém dizer em alto e bom som quando chutaram sua pequena tigela de trocados. As baquetas eram velhas e gastas pois foram compradas usadas, correndo o risco de se desfazerem nas mãos do franzino Bake.
 
O maior sonho de Bake era formar uma banda boa o suficiente para que fossem promovidos como Geradores de Energia Senior e então nunca mais alguém poderia chama-lo de ralé. Mas Bake só costumava sonhar quando não estava morrendo de fome.
 
Estava com sorte naquele dia e conseguiu barganhar um grande pedaço de pão dormido que abocanhou em poucos segundos.
“Pa rum pum pum pum…” murmurou feliz com seu pequeno tambor pendurado por uma correia. O tambor era gasto e precisava de manutenção urgentemente, mas era tudo o que restava da mãe de Bake. Era o seu legado.
Quando a mãe, violocenlista extremamente talentosa, faleceu e deixou Bake e os irmãos com o problemático pai gaitista o destino se fechou contra o pequeno baterista.
“Sua música de nascença só tem isso?” foi o argumento final para que o garoto de cinco anos fosse expulso de casa e jogado na vida das ruas de Orquestria. Bake sobreviveu naquele ambiente por cinco anos e quase não se lembrava da vida familiar em uma casa fixa e quentinha.
 
 
“Tem certeza de que são as únicas que tem? Já olhou no estoque?” Uke já tinha conferido em quatro das cinco lojas que seu mestre Laboriel havia indicado e nenhuma possuía as baquetas que ele precisava na loja de música.
“Olha garoto, esse material é tão descartável que dá pra comprar uma centena por uma bagatela. Mas você e o Laboriel querem os mais raros e caros. EU NÃO TENHO GAROTO, some daqui!” enxotou o jovem.
 
Uke não tinha escolha a não ser voltar para casa de mãos vazias ou procurar em alguma loja não confiável. As duas escolhas não pareciam boas o suficiente então decidiu andar um pouco mais pela cidade para pensar, assobiando sua música habitual.
 
 
A tarde começava a se tornar fria então Bake decidiu iniciar sua corrida por abrigo mais cedo.
“Ontem eles tomaram a minha caixa mas hoje eu vou conseguir uma nova…” não se sentia tão otimista assim fazia muitos anos. O céu alaranjado começava a se tornar escuro quando Bake encontrou um beco seco e aconchegante o suficiente em seus parâmetros de menino-de-rua.
“Pa rum pum pum pum” murmurou antes cair no sono.
 
O chute que levou não só o acordou como o jogou para longe das caixas que havia achado.
“Não te falei pra sumir da minha vista moleque!?” Trosh tinha a mesma idade que Bake mas sua altura e ombros largos o tornavam o rei-valentão das ruas. Bake tinha de lidar também com o ódio sem motivos de seu colega-de-rua.
Pegou seu tambor e correu pelas ruas frias da capital com tanto ímpeto que não via nada além de vultos se afastando. Talvez fossem suas lágrimas.
 
 
Uke estava sentado em um balcão de um café famoso na cidade, o Soneto, conhecido por seu palco que protagonizou inúmeros músicos importantíssimos. Mas naquela noite que tocava era um guitarrista genérico que tornava o clima frio do lado de fora ainda mais melancólico com seus acordes menores.
“Laboriel quer as baquetas mas ainda não temos o baterista…esse cara realmente não trabalha na ordem certa” pensou com um sorriso distante.
 
Pagou a conta e se dirigiu para a saída mas não chegou a terminar o trajeto.
Um garoto loiro corria pela entrada e derrubou diversas mesas no caminho e estantes alocadas próximas a porta. Depois do som de coisas se espatifando vinham os gritos de reclamação. O garoto só parou para se agarrar nas pernas de Uke e chorar incessantemente.
“É um garoto de rua” se agachou e olhou para ele de perto. “Calminha amigo. Qual a pressa?”
O garoto balbuciava mas não transmitia nada coerente o suficiente para uma conversa. Entretanto não pode se recompor pois um homem de terno o puxou pelo colarinho.
“Olha aqui piralho, olha o que fez!” O gerente do café apontava para uma série de vasos estilhaçados no chão por conta da corrida desenfreada do garoto. “Vai ter que pagar!”
“Deixe o garoto” Uke interviu antecipando o tapa do gerente e segurando seu braço.
“Vou chamar a polícia!” gritou, fazendo os olhos do garoto se esbugalharem.
“Não vai ser preciso. Quanto ele deve?” disse soltando o braço do homem de terno. Tossiu quando o gerente revelou a média do valor dos vasos: nada milionário, mas equivalia a quatro vezes o que o jovem tinha.
“A menos que…”
 
Uke percebeu que o garoto carregava um pequeno tambor. Se aproximou e surrando fez a pergunta: “É um baterista?”
Bake acenou positivamente com a cabeça.
“Qual música conhece de cor?”
“S-Só uma…” Bake parecia envergonhado mas Uke sorriu e se levantou.
“Nós pagamos com um show!” ouviram todos ao seu redor.
 
 
Uke levou quase uma hora para convencer o guitarrista a emprestar sua guitarra vermelha e mais alguns minutos para uma garçonete tentar limpar o rosto sujo de Bake.
“Tá nervoso Bake?” o garoto respondeu com um silencioso aceno afirmativo. “Fica tranquilo baixinho. Siga seu ritmo, encontre sua música” piscou e se sentou no banco de madeira a direita no palco. “É só acompanhar. O garoto…dá pra ouvir a música dele daqui” Bake entrou logo em seguida e se sentou no banco esquerdo.
Quase caiu e provocou os risos histéricos de toda a platéia. Corou mas corajosamente começou a surrurrar sua canção:
 
“Come they told me, pa rum pum pum pum” tão baixo que quando ergueu as baquetas e começou o ritmo no tambor sua voz quase sumiu.
“A new born King to see, pa rum pum pum pum” Uke iniciou sua sequencia suave de acordes soltos.
 
“Uma música de natal? Estamos em Julho seus idiotas!” gritou alguém da plateia acompanhado de vaias mas isso apenas motivou Bake a cantar mais alto.
 
“Our finest gifts we bring, pa rum pum pum pum

To lay before the King, pa rum pum pum pum,
rum pum pum pum, rum pum pum pum”

 
Naquele momento Uke fazia a segunda voz para o canto natalino. A plateia ficou espantada. O pequeno baterista tinha uma voz aguda e pura enquanto Uke possuia uma voz mais aveludada e grave. A combinação era onírica, estonteante, hipnotizadora.
 
“So to honor Him, pa rum pum pum pum,
When we come.”

A guitarra se tornou mais presente e o tambor mais preciso. A música fluia como água naquele ambiente.
 
“Mary nodded, pa rum pum pum pum

The ox and lamb kept time, pa rum pum pum pum
I played my drum for Him, pa rum pum pum pum
I played my best for Him, pa rum pum pum pum,
rum pum pum pum, rum pum pum pum”

A plateia passou a cantar junto. Todos cantaram.
 
“Then He smiled at me, pa rum pum pum pum
Me and my drum.”
Os rostos abaixo do palco brilhavam por causa das lágrimas. Bake abriu o maior sorriso que já havia aberto em toda sua curta vida.
Ninguém sabe exatamente o que aconteceu naquela música, somente que ela parecia ter mudado algo no mundo. Algo grandiosamente bonito.

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