Sábado 14

Faltava meia-hora para o término sair do escritório. José já contava os segundos para ir pra casa e lutava contra o sono naquela noite. “Diazinho mais sem-graça” pensou olhando para as planilhas preenchidas no computador.

– Bom término Zé! – gritou Mateus, o último funcionário a sair – E vê se toma cuidado hoje hein, é sexta-feira 13 hahahaha.
José esboçou um sorriso “folgado, sai mais cedo e faz piada” pensou.

Para espantar o sono resolveu ir ao banheiro. Urinou no mictório e lavou as mãos com lentidão. Se abaixou para molhar o rosto mas antes de se levantar novamente sentiu um arrepio. Tomou um susto quando olhou seu rosto completamente pálido.
“Cara, esse emprego tá me matando mesmo…” José pensou.
“Verdade né, que tal uma então?” outra voz em sua cabeça sugeria.

Os vinte minutos seguintes no computador passaram rápido e José conclui mais um dia de trabalho ao passar pela catraca.

“Uma só cara. Dá nada…” a voz repetiu.

O bar estava lotado com funcionários da empresa de telemarketing que ficava próxima. Pagode no último volume. Quase todo mundo tinha alguma bebida na mão.

Mas foi a visão do vulto negro saindo do estabelecimento que colocou os pés de José em movimentos trôpegos e desesperados, se movendo rapidamente para longe dali.

José parou para respirar, muito longe da empresa.
“Onde raios fui parar?” pensou ao olhar para o bairro residencial.
“Vai lá José. Dá nada cara. VAI!” ouviu a voz estranha novamente.

Evitou os olhares de quem morava andava por ali e seguiu em frente num passo acelerado.
“Um ponto de ônibus. Qualquer coisa…”
Sentia dedos frios puxando sua cabeça para trás, levemente. Num disparate ergueu o braço, empurrou o vulto negro e saiu correndo.
“Não pode fugir”

José sentia garras o alcançando, as pontas penicando. “Eu vou morrer na sexta-feira 13!?” O monstro crescia e crescia correndo em sua direção. Era possível ver sua silhueta disforme se formando em algo mais físico. Correu até a queimação nas pernas se tornar insuportável. Tropeçou e encarou o monstro de frente.
“Não pode fugir de mim”

José chutou. Socou. Se remexeu enquanto era suspenso pela sombra. Evitou encarar os olhos do monstro a todo custo mas o cansaço tornou impossível não reconhecer:
– N-Não…NÃO!!! – gritou e se libertou jogando o corpo para trás.
O impacto no asfalto o fez respirar mais fundo, se levantou e voltou a correr.

Entrou de rompante no primeiro prédio a vista quando ouviu os gritos estridentes do seu algoz.
– É um pesadelo. Só a droga de um pesadelo – disse a si mesmo puxando os cabelos com violência. Bloqueou a porta com algumas cadeiras e pedaços de madeira que encontrou.
– É uma igreja – José somente percebeu quando boa parte da porta estava imersa em madeira e bancos. A igreja tinha um grande interior.
– Mas justo aqui eu fui fugir? – disse sentindo um gosto amargo.
– ENTÃO É AQUI QUE VAI ME MATAR? – José não sabia se gritava para o monstro ou para o próprio Deus. Era quase onírico.

Em um instante podia sentir o coração batendo cada vez mais devagar, os músculos retesarem e a barra de ferro perfurando seu peito.
– Quando que você… – cuspiu sangue e olhou para o tentáculo que segurava a arma. José estava sendo imergido em trevas e inúmeras garras, chifres e braços que eram expelidos pela criatura.“Não podes escapar de seu próprio coração”

A escuridão começava a tomar a visão de José.

José ergueu os olhos para o vitral quebrado e para as estrelas. “De onde virás…” pensou em algo que não ouvia a muito tempo.
Suspirou, cuspiu mais sangue e seu coração deixou de bater. Uma canção acompanhou seu sono, um velho hino de sua memória.

José acordou com o sol em seu rosto. O sangue havia secado e a barra de ferro estava ao seu lado. Tentou se erguer mas sem sucesso.

“Cinco anos sem uma gota de bebida e acabo parando aqui” pensou e olhou para a mancha na camisa “Deve ser vômito. Com certeza é vômito”

Começou a chorar e olhou para o alto, para o sol que nascia.

“O meu coração está acelerado; os pavores da morte me assaltam.
Temor e tremor me dominam; o medo tomou conta de mim.”

A canção aumentou de volume em sua mente.
Era o Sábado 14.

Leave a Reply