Olá Novo Mundo

Cris deu mais um tapa em sua face direita. “Não posso dormir. Não posso” disse para si mesmo.
A espingarda se mantinha apoiada na varanda do sobrado mas seus olhos já não se mantinham tão estáveis. O sol começava a nascer e com ele os vultos dos zumbis mais distantes se tornavam mais nítidos.
“Só mais algumas…horas” Cris fechou os olhos com força e se ajeitou na cadeira.
“Você ficou a noite inteira mesmo?” a voz embargada veio de suas costas.
Cris bocejou e se virou tentando parecer bem disposto. “De boas Ana”
“Não deveria montar guarda toda noite Cris” Ana era muito mais alta (e alguns anos mais velha) que Cristiano. A diferença era muito mais evidente aos olhos do garoto naquela manhã.
“Já disse que tá de boas…” cortou a fala com outro bocejo “…e os seus irmãos? Durmiram bem hoje?”
“Pela primeira vez em meses” disse ela com um sorriso que aqueceu o coração do adolescente.
Os dois passaram cinco minutos em silêncio observando as ruelas que formavam o bairro e os vultos esparsos que a ocupavam.
“É melhor você voltar pra sua casa. Seu bando não tá preocupado com você?” Ana disse esfregando os olhos e se espreguiçando.
“…é, talvez. Ok”
Cris passou a correia da espingarda pelas costas e colocou sua mochila.
“Se cuida Ana” disse dando um desajeitado beijo no rosto de despedida. Tudo em Cris era desajeitado perto da amiga. “Diz pros dois pequenos que logo logo eu consigo chocolate” sorriu, ligou o celular e colocou seus fones de ouvido. Saltou para a varanda do sobrado ao lado….O caminho do subúrbio até o prédio-base estava impresso na mente do garoto: cada telhado, varanda e rua eram tão familiares que seus saltos eram baseados em pura intuição com uma dose extrema de rock independente.
“Nem são os últimos sucessos do fim do mundo?” lembrou-se de Ana comentar ao ver a playlist do antiquado porém valioso celular.
Sorriu sozinho. Sorria muito desde que havia encontrado a garota e seus pequenos irmãos morrendo de fome e enclausurados naquela casa.

Cris tropeçou ao cair na rua. Os fones de ouvido se desconectaram do celular, o que levou o aparelho a tocar a música alta em seu pequeno alto-falante. Barulho suficiente para chamar a atenção de diferentes hordas ao redor.
“Corre seu idiota. CORRE!” disse a si mesmo quando entrou em disparada pela viela mais próxima. Os grunhidos e berros dos zumbis se tornavam cada vez mais altos.
O garoto correu até a cerca de metal que separava o prédio do subúrbio infestado. Escalou a grade da cerca e caiu no outro lado, ficou no chão mais alguns minutos e se levantou antes que caisse no sono ali mesmo.
“Ei pessoal! Apareceu o galã” brincou João, um dos sobreviventes mais novos do grupo (apenas três anos mais velho que Cris). “A noite foi boa então hein?” os jovens que jogavam truco irromperam em risadas.
Cris apenas deu um meio-sorriso e foi para o primeiro andar. Pulou na cama e apagou….
“Cris. Acorda Cris. Cris!” José sacudiu o ombro do garoto até que acordasse.
“Tarde! Droga, dormi demais” disse se levantando repentinamente ao ver o céu já escurecendo. “Que horas são?”
“Umas seis horas, mas cara, presta atenção” Cris notou a rara seriedade do colega e ouviu com atenção. “O Manuel encontrou a base perfeita e provavelmente estaremos na boa pra sempre, mas pra isso a gente vai numa missão”
“Posso i…”
“NÃO! Antes que peça pra ir junto a gente não vai precisar de você hoje. Mas precisamos que você saia daqui e vá pra outro lugar seguro. Onde sua namorada tá talvez…”
“Já disse que ela não é…Por que?”
“A distração vai chamar todos os zumbis pra essa direção cara. A base aqui vai ficar bem cercada”
“Entendi” disse se lembrando do grandioso plano do chefe do bando, Lucas, para distrair e mover as hordas quando necessário. Parecia ser naquele dia o tal momento de necessidade….Cris já estava a menos de dez minutos da casa de Ana. A rua parecia livre de zumbis (graças a alguns de seus truques com barricadas que pareciam ter finalmente surtido efeito) então aproveitou o terreno plano para sonhar acordado.
“O pessoal tava esquisito…” disse se lembrando da demorada despedida do grupo rumo ao lado oeste da cidade. “Parecia uma despedida final…que isso Cris!? Eles vão ficar bem”.
O garoto não pensava muito na morte depois do pai ter sucumbido aos zumbis num ato heroico. Ele havia perdido alguns amigos do bando mas a maioria deles era forte e aguentaria a tudo. Eram grandes exemplos de como sobreviver no inferno que se tornou o mundo.
Mas a sensação de despedida final não o abandonou quando chegou no sobrado de Ana.
“Ana? É o Cris!” bateu na porta suavemente.
“Ah, Cris! Que bom te ver” Ana surgiu na varanda, ajeitou o cabelo e entrou. Parecia estar maquiada. O coração de Cris acelerou como em todos os encontros.
Ana abriu a porta e cumprimentou Cris com um comum beijo no rosto direito. Ela realmente estava mais bonita naquela tarde.
“Descansou bastante? Espero que a viagem tenha sido tranquila”
“Ah, foi tranquila sim” respondeu ele com um pequeno sorriso “E você? Tudo bem?”
“Tirando os meus irmãos que simplesmente estão nos 220, eu estou bem. Encontrei umas coisas no sotão” Ana apontou para seu próprio rosto “Era da minha avó provavelmente. Gostou…digo, é…você acha que eu fico bonita?”
“Sim” a palavra monossilábica foi a única que teve folêgo o suficiente para responder.Ao subir as escadas Cris foi interceptado pelos pequenos gêmeos, agitados e enérgicos, que o abraçavam.
“Ei Pedro. Marcos” ele era um dos poucos que saberia diferenciar os dois “O que andaram aprontando hein?” disse bagunçando o cabelo de um deles.
“Achamos chocolate!” disseram em uníssono revelando a causa do entusiasmo.
“No sotão?” se virou para Ana e franziu a testa numa mistura de piada e dúvida.
“Não. Eu, é…eu dei uma andada pela vizinhança e achei umas coisas na verdade” respondeu corando.
“Podia ter me pedido pra vasculhar na área Ana. Não é seguro…”
“Eu não aguentava mais ficar aqui Cris. Eu precisava sair um pouco. Só aproveitei pra ir nos vizinhos” interrompeu nervosa. Cris conhecia pouco sobre esse lado mais explosivo da garota. “Mas…tá, você tem razão, não posso deixar os dois sozinhos mesmo” suspirou ela.
“Tudo bem Ana. Tudo bem” Cris colocou a mão direita sobre o ombro esquerdo da garota (movimento que quase o levou a ficar na ponta dos pés). Os dois ruborizaram e passaram alguns minutos evitando olhar diretamente um para o outro.”Quer ver o que mais eu trouxe?” Ana cortou o silêncio constrangedor. Cris concordou com um aceno.
Na sala havia uma série de enlatados, livros, instrumentos domésticos comuns e várias quinquilharias.
“Uou. Você fez um arrastão senhorita. Em vinte anos nessa indústria vital eu nunca vi isso acontecer”
“Indústria vital?”
“Tinha um desenho antigo que…ah, deixa pra lá. A piada era ruim” mas Ana riu mesmo assim. “Como queria parar o tempo…como eu queria” pensou ao ver o sorriso dela.Entre os espólios estava um violão que chamou a atenção do garoto: com as cordas já enferrujadas ele parecia estar abandonado a mais tempo que o próprio apocalipse zumbi. Ana notou Cris encarando o instrumento musical.
“Você sabe tocar?” perguntou ao garoto.
“Fiz umas aulas. Meu pai que tocava” Cris tentou não transparesser a dor da lembrança mas o olhar de Ana revelou que não havia conseguido. Ao pegar o violão pelo seu braço lembrou-se das músicas sertanejas de raíz que o pai adorava tocar. Sua infância havia sido recheada de histórias do interior, da famosa “Roça”, e músicas sobre essa vida.
Por insistência paterna ele fez algumas aulas aos dez anos, sem grande sucesso ou tempo para que gostasse. Mas após a morte da mãe o violão perdeu muito de seu espaço na casa e só era usado para tocar alguns acordes melódicos e tristes.Ana se sentou na poltrona e apoiou o queixo com a mão esquerda. “Ela quer ouvir algo”
Fez as posições dos únicos três acordes que conhecia com a mão esquerda e jogou a mão direita nas cordas. Estava desafinado e provavelmente as cordas se partiriam em instantes, mas Cris estava tão absorto em memórias que quase chorou.
Cris não percebeu que havia parado de tocar por alguns minutos e que encarava os olhos castanhos de Ana desde então. “Não sou muito bom”
“Foi lindo Cris” disse ela com os olhos marejados.
Os gritos dos gêmeos e o som de algo se quebrando interromperam o concerto.
“Mas o que vocês estão fazendo?” gritou Ana ao subir as escadas ao som das risadas dos dois….”Então vai ficar a noite toda?” Ana servia o arroz para Pedro. O jantar ao redor da pequena mesa era um banquete nos padrões do novo mundo.
“Vou. Tenho que esperar o sinal deles e só então vai ser seguro” Cris tomou mais um gole do refrigerante. Marcos o imitou brincando.
“Esse seu grupo, eles estão juntos desde o começo de tudo?”
“Alguns deles. Com o tempo mais gente foi chegando e bem…sou o caçula por enquanto” disse rindo ao olhar o pequeno Marcos.Após o jantar os gêmeos iniciaram o prático processo de bocejar e piscar os olhos mais lentamente.
“Hora de dormir pra vocês dois” Ana disse levando os dois para o quarto no andar de cima.
Cris sentiu o ar quente daquela noite na varanda. Era verão. “Isso me lembra tanta coisa…”
Ana chegou cinco minutos depois e se sentou na mesa iluminada pela luz das velas, como tudo era iluminado depois do apocalipse. “Eles esgotaram finalmente. Nunca mais dou doce pra eles” disse se sentando de costas para a cidade. Não haviam muitas luzes.“Ana. Posso te perguntar uma coisa?” Cris fixou o olhar no rosto de Ana. Estando à luz de velas seus olhos pareciam ter um tom castanho ainda mais forte.
“Pode”
“O que acha que vai acontecer com a gente? Digo, com o mundo desse jeito o que a gente pode esperar?” disse sentindo o rosto ficar quente.
Ana pensou por alguns segundos antes de responder. “Os zumbis vão acabar um dia. Tipo assim, todo dia alguém mata mais zumbis então uma hora eles acabam. Mas…” ela parecia perdida nos mesmos questionamentos de Cris mas interrompeu a fala com um riso tímido.
“Que foi?” Cris sorriu.
“É meio bobo”
“Vai, fala” insistiu.
“Não!” disse rindo. Os dois riram. “Tá. Desde pequena eu queria ser modelo. Eu sei que o mundo não vai precisar de moda por um bom tempo, mas, sei lá”
“É um bom sonho Ana. Você é bonita, digo, pra ser modelo e tal”
“Obrigada. Mas Cris, e você?”
“Eu? Desde pequeno eu queria ser um superheroi, mas acho que não vai rolar. Só quero ser importante. Proteger as pessoas. Proteger você…” instintivamente colocou a mão direita sobre as mãos dela. Podia sentir o calor de suas mãos e como eram macias.A noite foi cortada pelos sons quase apagados de explosões.Então o clarão e o estrondo irromperam na escuridão da região leste da cidade. A direção errada.“O plano! O plano deu errado?” Cris arregalou os olhos e se levantou. Pegou o rádio e tentou contatar seu grupo. “José! Lucas! Alguém caramba!” Ana se levantou igualmente preocupada.
“Cris? Tá de boas ai?” era a voz de José
“Estava até vocês detonarem a bomba errada”
“Como assim cara? Detonamos aqui na área oeste e…” José exclamou alguns palavrões e gritou para alguém. “Era pra desativar a droga das bombas do lado leste! Mas é um incopetente mesmo”
“JOSÉ! Eles vão vir pra cá agora. Tinha muito mais explosivo ali”
“O que tá acontecendo Cris?” Ana mordia os lábios com força. Cris estendeu a palma da mão direita pedindo que aguardasse.
“Eu to indo ai cara. Cê tem que fugir dai”
“Não posso José. Eles vão ficar vulneráveis aqui”
“Eles quem?” José sabia mas queria confirmar.
“A minha amiga. Os irmãos dela são crianças pequenas. A gente tem que tirar os zumbis dessa direção. Onde tem mais explosivo?”
“No sul. Caramba cara você não vai chegar a tempo”“Toma cuidado tá?” Ana tinha os olhos marejados quando abraçou o garoto.
“Ao menor sinal deles aparecerem você foge daqui. Entendido?” sua voz se tornou mais serena e grave que o normal. “Queria ter a sua coragem pai”
Colocou a correia da espingarda no ombro direito, ajeitou os fósforos no bolso e saiu correndo em direção ao sul.
Cris correu por meia-hora e conseguiu atravessar mais da metade do caminho indicado por José, mas a queimação nas pernas e cansaço não permitiriam que corresse mais rápido.

O grunhido característico dos monstros o fez congelar no lugar.
“Não. Não. Não. NÃO!” a horda que virava a esquina era a maior que Cris havia visto. Aproximadamente cinquenta zumbis estariam se movendo num trote rápido que os fazia parecer um exército necrosado. Rumo a região onde estaria Ana.
Sem tempo de pensar em um plano prudente Cris pegou o celular e deixou que o alto-falante do aparelho chamasse a atenção dos monstros.
“EI! Que tal um pouco de rock hein zumbizada? AQUI!” disparou na viela a esquerda quando garantiu que estava sendo perseguido.
Perseguido não só pela horda mas também por qualquer zumbi errante mais próximo. Já não precisava da música alta.A corrida desenfreada o levou até o destino, uma fábrica ilegal de fogos de artifício e alguns explosivos. Ao fechar a porta ele sabia que teria apenas alguns minutos. “Vai vai vai. Rápido”.

Os explosivos estavam armazenados organizadamente no centro do galpão assim como José havia dito. O detonador estaria perto da pilha.
“Cadê? Cadê?” sentia as mãos tremerem de desespero ao procurar entre as caixas. A primeira que abriu estava recheada de dinamites.
O som da porta se desfragmentando impediu a busca. “Não dá tempo. NÃO DÁ!” agarrou uma das dinamites e disparou para a porta dos fundos.
Ruas desconhecidas. Cris nunca esteve naquela região da cidade. “Pra onde? Onde?” agarrou os cabelos e gritou. “Pai…”As lembranças interromperam seu desespero….O pai havia morrido ao tentar interceptar uma horda que perseguia um pequeno grupo. Tendo apenas um carro compacto ele se jogou contra os montros.
“Vai ficar tudo bem filho. Se desesperar não adianta em nada…” tinha dito ele quando o pequeno Cris começou a chorar. Ele havia conseguido salvar o grupo, mas o carro havia se descontrolado e batido num poste. O ferimento causado pelas ferragens do carro o prenderam no veículo. “Cuidem dele…” disse com seu último suspiro para o líder do tal grupo….”Ana. Pai. Galera…vou conseguir. EU VOU!”
Cris disparou para a grande avenida que dividia o lado oeste do leste da cidade, usou o fósforo para acender o pavil e jogou a dinamite sobre a horda que o perseguia. A explosão obliterou boa parte dos monstros mas o barulho alertou três hordas em diferentes pontos da mesma avenida.
“Cadê? Cadê? Ali!” localizou a grande depressão que ficava a direita da avenida e deslizou sobre a formação inclinada.
O piscinão havia sido uma base militar no começo da crise. “Será que os explosivos ainda estão aqui?” o lugar não era um dos pontos de explosão considerados seguros pelo bando.
“Muito zumbi véi! MUITO” tinha dito Eduardo. Os zumbis rolaram pela inclinação e se atrasaram por alguns minutos ao se amontoarem na queda.
“Isso!” comemorou ao ver a mesma pilha de caixas e malas amontoadas no centro. “Não vai dar tempo pra pavil” tirou a espingarda das costas e apontou para o monte de explosivos.
O recuo da arma o fez errar. Sentia as mãos suadas contra o cano da arma.Zumbis se aproximando.Cris tentou atirar novamente mas o zumbi foi mais rápido e puxou seu braço para morde-lo. Houve tempo de se virar e atingir o monstro na cabeça com uma coronhada, mas ficou completamente vulnerável. Os zumbis pareciam ser parte de uma cachoeira que desabava sobre o piscinão.
O garoto correu mais ainda. Mancava por conta das caimbras.Dor.Escalou as caixas e ficou acima no monte de explosivos. “Acabou Ana…me perdoa” apontou a arma para baixo e em prantos olhou para o horizonte. Apertou o gatilho.A arma emperrou. Não disparou.
Desesperado derrubou os fósforos do bolso e encarou o chão. “Gasolina!” acendeu um dos fósforos e o jogou sobre a poça de gasolina que vazava de um dos barris. As chamas causaram o meio segundo de distração que Cris precisava para correr novamente. O clarão cegou Cris e algo pesado se chocou contra suas costas….”Putz cara, até os zumbis do Acre vão pra lá agora” disse José olhando a claridão vinda do sul. Ana roia as unhas enquanto os irmãos olhavam silenciosamente para as luzes.
“José! O que foi isso?” disse Lucas, o líder do bando de José, através do rádio.
“Ele…caramba Lucas, o cara explodiu a base pra distrair os…mano, o Cris…” José não conseguia terminar a frase.
A resposta foi uma série de palavrões via rádio. Ana não conseguia tirar os olhos do horizonte.“Como você deixa o garoto ir sozinho José?”
“Ele saiu correndo cara! Eu não tenho culpa”
“Cris é só um garoto José! Ele não…sair correndo…explosão” interferência cortou a fala do colega.
“Lucas. Lucas! Mas que…”…”Olha garota. Eu conheço o Cris e sei que ele é rápido e já deveria ter voltado. Você sabe que…” José tentava argumentar.
“Ele não tá morto!” gritou ela aos prantos.
“A gente não sabe. Não posso te deixar sozinha pra buscar ele. Só acho que podiamos ir pra um lugar mais…”
“Se quiser ir vai logo. Eu vou esperar o Cris” O dia clareou cinzento com uma neblina capaz de lembrar um filme de terror.
Ao longe uma sombra surgiu subindo e descendo, encoberta pela névoa.
“Pra trás garota. Deve ser um errante” José ergueu o rifle e apontou para frente. Mirando identificou melhor o que se aproximava mancando.Seu queixo caiu.
Ana saiu correndo na direção do vulto. Como se a revelação tivesse melhorado o próprio ar, a neblina se tornou menos densa.
“Quebrei uma costela. Certeza que quebrei uma costela” pensou Cris antes de ver Ana, chorando, correndo em sua direção.
O impacto do abraço fez seu coração se apertar. A costela realmente tinha se quebrado.
“Seu idiota. Maldito. Inconsequente” sussurrava ela ao mesmo tempo em que chorava sobre o cabelo dele.
“Acho que sei o que quero do futuro” os olhares estavam completamente alocados nos olhos um do outro. Nem a altura fazia diferença.
“O que é então?”
“Ficar aqui. Com você” Cris riu até sentir as costelas doerem novamente.
“Bobo…” Ana socou seu braço e em seguida o beijou. Cris fechou os olhos e apenas escutou os sons de comemoração de José e dos gêmeos….”Cara. Acho que estou testemunhando o final de um filme ou algo do tipo” José disse segurando o rádio.
“José. Olha pro céu” Lucas disse com a voz embargada.
José pôde ver tantos aviões se aproximando que o céu ficou ainda mais escuro. Eles jogavam algum tipo de líquido azulado sobre o solo, o que causou uma breve chuva com cheiro de flúor.
“O exército tá mandando essa mensagem a cada cinco minutos. Tão falando sobre uma cura José. Acabou cara. Acabou…” José quase não ouviu o amigo falar pelo rádio, abriu os braços e recebeu de bom grado o fim do apocalipse.

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