Gafanhotos

…pensamentos.
Dificíl pensar.
Ando.
Arrumar. Pensamentos.

Meus pés doem. Que frio! Fome…muita fome.
Acho que vou me sentar um pouco.

Onde estou? Só estou vendo borrões.
Minhas mãos!

Sinto o ar sair dos meus pulmões. Devo estar gritando.

As minhas mãos estão amareladas!

Parece que não é minha voz.

O que são essas unhas afiadas?

É estridente. Eu gritava assim?

Vou tentar me levantar.
Não. Dá.

Fome.
Acho que conseguiria pensar direito se não tivesse com tanta fome. Se pudesse comer de novo aquele…aquela…o que eu comia mesmo?

Consegui me levantar finalmente. Após alguns passos eu me localizei: estou em uma caverna. Debaixo da terra ou algo do tipo.
Posso escutar o gotejar distante.
Não sinto sede mas sei que preciso beber algo.

O que estava fazendo aqui? Aliás, o que…quem eu sou? Eu não tinha essa pele amarelada e nem essas garras. Quando passei a língua entre os dentes pude sentir que são afiados também.
Será que eu sou algum animal? Não, animais não pensam. Eu acho.
Ou sou um monstro?

Fome.

Ok, após andar bastante e acabar caindo de cara na lagoa da caverna eu tenho algumas observações:
Primeiro, eu acho que um animal precisa de ar pra sobreviver e eu estou a uns…um tempão aqui debaixo d’água.
Segundo, se eu realmente for um monstro então ou eu aterrorizo as pessoas ou as pessoas me caçam. Então ou eu estava atacando alguém e acabei aqui nessa caverna ou o contrário, estava fugindo.

Essa água tá me incomodando.

Depois de uns cinco…momentos eu sai da lagoa encharcado mas revigorado de certa forma. Deixei a água meio turva por conta da sujeira e sangue. Sangue tem essa cor certo?
Acho que vou continuar andando até encontrar a saída.

“Aihiiiiiii!” grito estridentemente e tento acenar para o careca amarelo logo a frente. Acho que não consigo falar, só pensar mesmo.
O outro se parece comigo, também é amarelo, tem as garras e respondeu com o mesmo grito estridente. Mas seu olhar é meio sinistro, como se me reprovasse.

A horda. O que eu to fazendo aqui e não matando? Os humanos malditos nos separaram da horda…

Horda? O que eu estou pensando? O que é a horda?

Que tipo de zumbi é você? Os humanos já te deixaram confuso Devorador?

Meu nome é Devorador?

Todos somos Devoradores.

Não! Eu não quero me esquecer de novo!

“AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH” dessa vez meu grito foi grave. Sou um herege e esse outro devorador tem que me matar agora.
Consegui saltar para trás antes que ele enterrasse as garras no meu peito. Ele está mais cansado.
Tento gritar que não quero mata-lo mas minha língua se enrola na boca e não emite nada além de grunhidos.

Não tenho escolha. A escuridão me quer e eu não vou voltar pra lá. Não agora.

Ergo a mão direita e faço um corte no ombro esquerdo dele. Sangue preto jorra por toda a caverna. Corro e consigo derruba-lo.
Me perdi em pensamentos de chacina e morte. Chacina e morte que eu cometi. Vilas e cidades que destruimos. A horda. O inverno.
Após golpear o monstro estou enegrecido pelo sangue escuro. Não me sinto mais como Devorador…não sei bem o que sou.

Sou um zumbi sem horda agora.

Fiquei ali por um bom tempo até que alguem me atingiu na cabeça. Espero que tenha acabado o pesadelo.

———-

“Acha que ele não é um deles?” disse Olaf segurando o rifle e apontando para a cabeça do zumbi ajoelhado sobre o corpo de outro zumbi.
“Não sei. Dá pra ver que eles lutaram e antes de bate nele ele não tentou nos atacar” May se agachou e verificou que o zumbi ainda respirava. Aliás, estranhamente respirava com muito mais “fôlego” que qualquer outro zumbi de cor amarelada.
“Ele é diferente. Vamos…vamos deixar ele por aqui. Temos que correr pra chegar antes do resto da horda.

O zumbi pode ver de olhos semi-fechados os dois vultos que usavam o uniforme cinzento do exército, mas ainda não sabia de qual exército se referia.
Após meia-hora se levantou e andou até a saída da caverna.

Não sou um Devorador. Sou um zumbi mas não sou como o resto. Quero descobrir o porquê então.

Coloquei os pés no lado de fora e senti o frio da neve que havia se acumulado naquela região montanhosa.

Mas não to sentindo tanta fome.

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