Mente vazia. Oficina sem notas

A saga de Orquestria começou aqui, e um novo integrante a banda foi introduzido aqui.

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“Bom dia Orquestria! Hoje o dia é ensolarado e quente, o sábado perfeito para se esquecer algumas coisas não é mesmo?

Esquecer deve ser o que o famoso guitarrista Johnny Slasher faz melhor. Depois da fraca apresentação das bandas geradoras sênior, a expectativa era alta para que o guitarrista salvasse a produção de energia desse mês. Mas o impossível aconteceu: confiram vocês mesmos a gravação no local”

“Eu…err…*som de vaias*…esqueci a música”

“É pessoal. O mais talentoso dos geradores de energia de Orquestria simplesmente esqueceu como se tocava sua música. O ministério de energia ainda não se pronunciou mas sei que esse fim de semana não vai passar sem o rolamento de algumas cabeças…”

Johnny socou o rádio do carro com violência. Dirigia em alta velocidade no seu conversível vermelho. Dirigia em fúria.

“Malditos! Malditos, malditos e malditos!” batia no volante quando quase bateu no carro que vinha na direção contrária. O outro carro possuía um jovem casal na frente e provavelmente seu filho no banco traseiro. Os dois buzinaram e se afastaram com quase a mesma velocidade em que evitaram o acidente.

“O mundo inteiro deve me odiar agora. Até mesmo você!” Johnny erguia o rosto para os céus quando o tempo ficou nublado e chuvoso.

Não era um bom dia para o guitarrista.

Ensopado, estacionou o carro num estacionamento qualquer e recostou a cabeça no volante marrom. O temporal havia acabado de passar. “Semana que vem eles vão esquecer” disse a si mesmo em voz baixa. Batia a testa na buzina, emitindo um som de carro e cabeça se encontrando que era reconfortante à sua própria maneira.

Desesperou-se ao lembrar-se do instrumento guardado no case, pulou para o banco de trás e suspirou aliviado ao ver sua guitarra intacta. Era um modelo mais antigo que a própria criação da Orquestria, mas seu formato em V e cor branca nunca pareceram ter mais do que alguns anos.

Johnny arriscou algumas notas na guitarra mas ainda não se lembrava da música.

Um carro de cor verde-escura estacionou perto dali. O mesmo carro que quase se chocou na viagem. A “família” saiu rapidamente e entrou na loja de música. A mesma que ele quase se chocou na estrada.

Johnny parou de tocar e começou a sentir o frio do vento contra seu corpo molhado. Decidiu entrar na loja e usar o banheiro, mas levou a guitarra por precaução.

Ao passar pela porta, e ouvir o pequeno sino que anunciava a chegada de clientes, o guitarrista foi atendido por um simpático senhor negro.

“Olá caro viajante-das-artes, vejo que é guitarrista senhor!”

“Como você…”

“Dá pra ver pelos seus dedos. Esses calos só surgem em quem toca guitarra” e irrompeu em uma risada que tremeu todo o seu corpo, principalmente a barriga, feito gelatina. Johnny ainda se decidia se achava o velho estranho ou extramente simpático. Mas o que tirou as palavras da boca de Johnny foi o fato de não ter sido reconhecido pelo atendente.

“…Preciso me secar” conseguiu dizer finalmente.

“Ah! É verdade, está ensopado! Por aqui” Laboriel levou o guitarrista até um corredor estreito e abriu a porta que ficava no meio dele. “Fique a vontade garoto. Qualquer coisa é só chamar”

Johnny primeiramente tirou a jaqueta e o case das costas. Se secou da melhor forma que pôde com o papel e toalha alocados naquele pequeno banheiro. Passados alguns minutos o atendente bateu na porta “Garoto! Tenho uma muda de roupa aqui. Use até a sua secar!”

Ao abrir a porta havia uma camiseta preta simples e uma calça jeans empilhados no chão. O guitarrista aceitou a hospitalidade de bom grado e se trocou.

Johnny escutou o distante som de violão ,voz e uma bateria quase descoordenada. “Tem alguem ensaiando?” perguntou ao voltar até o balcão.

“Sim, sim. Um é meu empregado, ele é que está tocando o violão, ainda precisa treinar haha. Quem tá cantando é a minha sobrinha, e o garoto da bateria é novo mas é um prodígio praticamente”. O guitarrista sentia uma espécie de conexão com a música sendo tocada, como se algo em sua memória fosse aquecido lentamente.

“Eles se importam se eu…desculpe, estou sendo o pior cliente do mundo”

“Haha, não fique assim garoto. Tirando a banda lá atrás esse lugar não recebe muita gente para vê-los. Vá vá” disse enxotando Johnny para os fundos da loja.

“When you try your best, but you don’t succeed

When you get what you want, but not what you need

When you feel so tired, but you can’t sleep

Stuck in reverse

And the tears come streaming down your face

When you lose something you can’t replace

When you love someone, but it goes to waste

Could it be worse?”

A garota loira segurava o microfone com delicadeza e cantava de olhos fechados. O garoto tocava no violão de cordas de aço, mas a julgar pelo esforço que fazia em alguns acordes ele seria um iniciante. E na bateria estava uma criança, um garoto magriçela, que batia os pés no tempo da música como se os contasse unidade por unidade.

“Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try, to fix you

And high up above or down below

When you’re too in love to let it go

But if you never try, you’ll never know

Just what you’re worth “

A memória foi tão impactante que quase o derrubou ao chão. Era a canção mais antiga que havia ouvido, da época em que o mundo ainda não se chamava Orquestria.

“Pai…você curtia essa música pra valer” sentiu os olhos marejando e o case levemente sendo baixado até o chão.

“Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try, to fix you”

Cada nota era reconhecida agora. Cada acorde era uma memória diferente do pai e de seu humilde violão de nilon, extremamente desgastado pelo tempo.

Ninguém parecia ter percebido a presença do guitarrista ali. Estavam tão absortos na canção que não poderiam notar nada além dela.

“Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try, to fix you

And high up above or down below

When you’re too in love to let it go

But if you never try, you’ll never know

Just what you’re worth

Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try, to fix you”

Johnny abriu o case, tirou a guitarra e a conectou no pequeno amplificador mais próximo no estúdio.

O guitarrista não sentiu necessidade de afinar, encontrar o tom ou contar os tempos. Ele apenas sabia que a música era a música que não poderia se lembrar se não fosse este momento.

A guitarra soou e Johnny deixou que sua mão direita fluisse como um rio sobre as cordas. O ritmo se tornou pulsante e toda a música passou a ser ainda mais harmoniosa. Estava além da emoção.

“Tears stream down your face

When you lose something you cannot replace

Tears stream down your face

And I”

Alice abriu os olhos e ficou espantada. Os outros dois igualmente, mas ninguém fez menção de parar a música. Bake fez sua entrada na bateria e tornou o ritmo ainda mais contagiante.

Lágrimas corriam pelos olhos de Johnny, mas seu pensamento estava voltando apenas para o ir e vir do braço direito.

“Tears stream down your face

I promise you I will learn from my mistakes

Tears stream down your face

And I

Lights will guide you home

And ignite your bones

And I will try to fix you”

O silêncio era preenchido apenas pela respiração ofegante dos quatro musicistas. Era a melodia da reconstrução.

Uke largou o violão e viu diante dos seus olhos a segunda vez em que viu a música curar naquele estúdio.

OBS: Encontrei essa música aleatoriamente no soundcloud procurando pela versão original do Coldplay. Achei que foi a versão que mais combinou com o que imaginei pra cena. Confira o perfil dela no soundcloud aqui.

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