Baixa frequência

Bassist_by_NonArk

King sentia-se um astro. Cada nota no baixo elétrico era carregada de tanta energia que sentia os dedos queimarem como num choque. O sangue subia e tornava o jazz ainda mais animado com os metais em sua marcante coreografia, a guitarra semi-acústica sendo empunhada com habilidade e o baterista que cantava e tocava ao mesmo tempo.
A animação era tão intensa que King não percebeu como o grupo havia desacelerado para o clímax da música.

Notas erradas. Desafinado. Tropeçou sobre um dos cabos e caiu levando a música consigo.

“É a quinta vez King! A QUINTA!” gritou Glenn, o primo baterista do alto e magrelo King. “A gente não vai conseguir competir se você vai perder a mão toda hora que for tocar”
“Aí cara. Acho que já deu hein” resmungou Jack, o guitarrista da banda.
“O garoto só se empolgou gente, que isso…”
“Valeu Darrel” sussurrou King, sentindo o rosto queimar.
“Talvez seja melhor você tocar só ano que vem” Eric tinha um sorriso no rosto.
“Mentiroso do caramba…”
“É, melhor ano que vem cara” Luther colocou a mão sobre o ombro direito do baixista.

King apenas acenou positivamente, pegou o case do baixo e saiu correndo do estúdio. Esbarrou em Myra, mas não esperou para ouvir o que ela poderia dizer.

“Ninguém entende. Mas que droga, ninguém nunca entende?” King jogava pedrinhas na água, tentando inutilmente faze-las quicar no lago.
“Ninguém nunca vai entender!” pressionou a última pedrinha com força suficiente para quebra-la.

“Olá senhor. Posso lhe fazer um pedido indelicado?” uma bela jovem de cabelo verde se aproximou e sentou-se no banco da praça.
“Um pedido o que?” respondeu corando.
“Posso ver sua guitarra?”
“NÃO É UMA GUITARRA!” pensou mas polidamente respondeu: “P-Pode…é um baixo”
“Ah, me desculpe. Dentro do case eu me confundo as vezes” a garota parecia ser apenas alguns anos mais velha que King, mas possuia um ar de autoridade raro. “Lembro de tão pouca coisa…” disse ela abrindo o case e pegando o instrumento pelo braço.
“Sabe tocar?”
“Bem pouco. Meu tio é baixista e me ensinou um pouco” ela arriscou algumas notas surdas enquanto King sentia seu perfume doce.

As notas eram suaves e quase inaudíveis. “Ela…ela tem o blues!”
“Já toca em alguma banda?”
“Eu? Tocava, agora estou procurando por outra” respondeu ela timidamente. “Desculpe, estou sendo indelicada” devolveu o baixo até o case e o fechou.
“Imagina! Você toca bem”
“Obrigada…bem, tenho de ir. Prazer em te conhecer…”
“King” apertou a mão da garota.
“Bethanny. Pode me chamar de Bet. Aparece qualquer dia lá no Soneto, vou tocar lá amanhã à noite”
“Pode deixar”

“Tem certeza Johhny? Hoje não é o dia em que os baixistas bons tocam” comentou Alice cutucando Uke que parecia absorto numa nova gaita que havia comprado.
“Confiem em mim garotos. Não sou o guitarrista número um por acaso” respondeu de forma ríspida o mais novo membro da banda.
“Não é mais…” resmungou Alice. Uke continuava admirando o instrumento novo.
“Mero detalhe”
“Cadê o Bake?”
“O garoto é uma celebridade nesse café agora. Ele não conseguiu chegar até aqui ainda sem autografar mais algo” disse Uke saindo de seu devaneio.
“Peraí. Vocês dois são a famosa dupla que fez todo mundo aqui chorar?” Johnny bateu as duas mãos na mesa.
Uke apenas concordou levantando o braço direito.

“Johnny, tira esses óculos escuros. Tá de noite!” Alice ria enquanto falava.
“E ser reconhecido? Não, até a gente vencer a competição eu estou nas sombras com meu óculos e meu chapéu”
“É melhor vir no dia da música mariachi então” Uke e Alice irromperam em gargalhadas enquanto Johnny apenas sorria para o casal.
“Oi gente” Bake se sentou segundos antes de uma moça de cabelos verdes entrar no palco.
“Olha, o famoso Bake veio se sentar com a gente” brincou Uke segurando o ombro direito do garoto.

“Droga! Não, caramba, sai da frente!” King sentia as pernas queimarem por conta do cansaço, mas não havia a menor intenção de desacelerar o passo na corrida pelas ruas da cidade. Com o case na mão direita e segurando o chapéu com a mão esquerda o atraso era iminente.
“Sem chance. Não vou chegar antes dela cantar…Por que a Myra foi querer conversar logo hoje” Lembrou-se da conversa que teve com a ex-namorada momentos antes. O motivo de seu atraso.
“Ela faz sempre isso…ela corre atrás de mim pra quê então? Sempre quando quero sair da banda” sentiu raiva ao recordar os constantes términos e voltas no instável namoro.

Myra era amiga de infância de Glenn, garota alta e esbelta, sempre fora paixão de King desde que começou a tocar baixo e descobriu sua música-alma. A entrada na banda havia sido motivada por ela e não pela música em si.
“Ela tá te usando King. A minha família bem que tinha razão…sou só um fantoche?” sentia a pele queimar como suas pernas.

“Chega. CHEGA! Não vou mais te aturar Myra” tinha dito a ela na despedida.
“Você não é nada sem mim King. Você tá na banda só porque…” Myra tentou convence-lo
“São vocês que precisam de mim Myra. Adeus, até nunca”  e partiu em corrida, sabendo que ela queria atrasa-lo.
“Então vai lá ver ela. MALDITO!” gritou conforme a distancia aumentava.

“A música-alma vai ser minha. Minha. Vou alcançar o topo com ela” 

“Caramba. A garota…a garota toca muito bem” pigarreou Uke, tomando cuidado com o comentário sobre a cantora ao perceber que a namorada o olhava fixamente.
“É, ela até que é boa” disse Alice.
“Boa? Ela arrasou pessoal. Quem canta assim só com o piano deveria estar entre o topo dos geradores” Johnny parecia abismado.
“Acho que é a Bet, a filha do dono” Bake disse entre um gole de suco e outro.

“Obrigado pessoal. Aproveitem a noite e lembrem-se sempre de que a música-alma somente ressoa na sinceridade” disse Bet no microfone com um sorriso estampado no rosto.

“Não…consegui” King fechou os punhos ao chegar ofegante no café.

“E como costume nas noites de quinta-feira nós abrimos o espaço para o público tocar. Mas pelo visto temos alguém ali sentado que todos querem ouvir não é mesmo?” disse Bet piscando para Bake.
“Bake! Bake! Bake!” Gritava a platéia.

O garoto de apenas dez anos se levantou e ergueu os ombros para seus amigos. “Hoje eu trouxe uma banda!” disse em voz alta, fazendo com que todos aplaudissem.
“Não vou poder cantar hoje Bake…vai ter de arrastar o Uke e o Johnny” sussurrou Alice apontando para a garganta, recentemente saída de uma gripe.
“Podemos cantar aquela nova” comentou Uke.
“Sem um baixo?” Johnny parecia mais nervoso.
“Improvisamos…” Uke se levantou e foi em direção ao palco.

“Olá. É uma honra tocar no Soneto novamente. Queremos tocar uma música antiga que estamos trabalhando, mas precisamos de um baixista. Caso alguém se ofereça obterá os nossos mais humildes agradecimentos…”
“Eu vou!” gritou King abrindo seu case, pegando o baixo e correndo até o palco sem olhar para Bet (que estava espantada pela aparição repentina).

“É uma música agitada, então…” Uke sussurrou para King.
“Ok, pode deixar” cortou em resposta
“Mas o tom que tocamos…”
“Vamos logo cara!”
“Tá…” e deu o sinal para que Bake batesse nas baquetas e contasse os tempos.
Johnny iniciou o riff da música com sua Flying V, Uke acompanhou na guitarra-base e Bake, demonstrando uma grande evolução, tocou na bateria.

Toda rosa traz um talo
Afiado desagrado
Que machuque ao ser tocado

Faz sangrar

Na asa de borboleta
A visão se torna preta
Quando o dedo do xereta
Volta ao olho pra coçar

King se deixou levar pelo som, e de olhos fechados acompanhou a banda. Cada nota era sincera e aos poucos entendia como a letra falava ao seu coração.
Uke sentia-se bem cantando dessa vez mesmo desacostumado a cantar sem a companhia de Alice. Bake parecia confiante e Johnny estava claramente se divertindo.

E o amor que é também de natureza
Vem fingindo sorriso pra mim
Traz consigo escondidos na beleza seu ferrões em bilhões

O solo de baixo veio de forma espontânea e sem qualquer atraso, erro ou dissonância foi executado com maestria. Uke entendeu então que o baixista precisava desabafar através da música, mas também sentiu a mesma vibração no peito que o despertou para a música-alma.
King continuava de olhos fechados. Não haviam mais notas erradas.

A famosa viuvá negra sensual interesseira
Do parceiro faz a presa pro jantar
Se a femeá de jõao de barro
Não se prende ao namorado
E depois de o ter trocado não sai mais do lugar

A platéia acompanhava animada, Bet gritava de empolgação e Alice aplaudia sentada na mesa.
King abriu os olhos para encarar Bet. “Ela…entende”

E essa dor que envergonha a natureza
Faz pensar se devo me entregar
Se ate bicho ta morrendo de tristeza
Raciocínio aos poucos me matará

Johnny iniciou o solo já esperado. “Esse cara me é familiar” pensou King ao olhar para o guitarrista.
A guitarra cortou o ar com suas notas e arrepiou os mais desanimados da platéia. O furor da música parecia contagiante e cada palavra parecia tão sincera aos ouvidos de King que ele até mesmo suspeitou se não teria sido ele que a escreveu.

Se o amor não ardesse em ciumes
Se amassemos como Ele nos amou
Se Corintios nos ditassem os costumes
Amaria sem sofrer nem um temor

Johnny finalizou com outro solo. Diferentemente da outra vez em que Bake e Uke cantaram, todos não choravam mas aplaudiam de pé para a banda.
King olhou para cima e em seguida sorriu para Bet. A vibração da música-alma agora era diferente pois não estava mais amarrada ao estilo musical ou pessoa.

“É a minha música-alma. Esse pessoal…eles me entendem”

Uke ligou o carro conversível. Bake dormia no banco traseiro, coberto pelo casaco de Johnny que se sentou ao seu lado e Alice ao seu lado sorriu para ele. Um calor preencheu seu peito ao beija-la.

“Eae pessoal. Acabei não me apresentando. Meu nome é King” o baixista surgiu ao lado do carro estendendo o braço direito.
“Ahn…olá King, prazer em conhece-lo” respondeu Uke. “Sou Uke, essa é Alice, o pequeno é Bake e o guitarrista é…”
“João” interrompeu Johnny.
“Ah, que bacana. Então, quando eu começo?” King parecia estar prestes a pular no carro.
“Como assim?” Uke franziu a testa.
“Oras, quando eu começo a tocar com vocês. Amanhã vocês vão ensaiar? Temos que ensaiar pra chegar no topo”
“Eu bem que falei que iamos achar” Johnny irrompeu em gargalhadas.

————-

Primeirandar é uma banda de rock independente que recomendo fortemente! Confira mais do som dos caras aqui.
Fonte da imagem: http://www.deviantart.com/morelikethis/334062511/digitalart?view_mode=2

Leave a Reply