Punhos confusos

The Protector - Tony Jaa -1

O som do nariz se quebrando soou pela rua. Ele não tinha a menor noção de como jogou o cotovelo para frente.

Um dia antes

“Vai chorar, Horacio? Ainda não chorou? Deixa eu te ajudar então” disse Marcio ao socar o estômago do franzino garoto de olhos puxados.
Horacio se curvou e ficou no chão, deitado, gemendo de dor enquanto Marcio e sua gangue saiam do banheiro. “Odeio essa escola. Odeio esse cara” pensou ele quando a dor começou a cessar. O sinal soou reafirmando a realidade de mais uma aula que se iniciaria.
O garoto se levantou, pegou a mochila do chão e saiu do banheiro.

Tudo dentro do normal na escola. Os mais fortes sobrevivem, os mais fracos tem que ser espertos e eu simplesmente sou o azarado…”
“Oi Horacio” Ana cumprimentou o amigo.
“Ah, oi Ana. Como vai?”  disse colocando a mão direita sobre a barriga, ignorando a dor.
“Bem, e…você tá bem Horacio?” Ana franziu a testa. Os dois eram amigos desde o jardim de infancia, mas somente pouco tempo antes ele notou como ela estava ficando bonita.
“Mas é claro. Por que? Ah, é que meu estomago tá me matando. Eu não comi nenhum cookie seu hoje não né?”
“Engraçadinho” riu Ana e lhe deu um soquinho no ombro direito. “Vou pra aula. Se cuida tá?”
“Pode deixar…eu acho
“Você faz dezesseis na semana que vem Horacio, tá na hora de chamar ela pra sair. E arranjar um banquinho também, baixinho”

“Ei, maninho! Cuidado com a entrada…” Lucas tentou avisar, mas Horacio caiu no chão escorregadio mesmo assim.
“Sério? Encerar o chão hoje, cara? Agora?” Horacio se levantou lentamente com ajuda do irmão.
“Desculpe se eu não tenho o aviso de chão molhado comigo hoje” riu e continuou a passar o esfregão.
“As vezes eu acho que você se daria bem no exército”
“Não. É contra os meus principios”
“Matar? Usar armas?”
“Limpar o lugar dos outros. Trouxa é que eu não sou” Lucas piscou e prosseguiu a faxina.

Horacio apenas sorriu e subiu as escadas até chegar em seu quarto. Decorado com inúmeros posters de filmes de artes marciais, uma série de action figures do Bruce Lee na mesma estante onde estavam as dezenas de livros sobre artes marciais e DVD’s dos filmes de luta.
O garoto se sentou próximo a escrivaninha e olhou atentamente para a foto dos pais, na época medalhistas de taekwondo pelo Brasil nas Olímpiadas.

“Maninho…tenho que te contar” Lucas tinha a face pálida quando deu a notícia. “Papai e Mamãe estavam naquele avião…aquele que explodiu”
Desde então os dois eram uma família de somente duas pessoas.

“Cinco anos né? Ainda parece que foi ontem…” Horacio dispersou as lembranças e ligou o computador.

Após o jantar Horacio ligou a TV, colocou o DVD de “Operação Dragão” para iniciar e se jogou na cama. Já tinha visto o filme centenas de vezes, tinha as falas decoradas, mas não passou da primeira luta antes de cair no sono.

E sonhou:

“Ele vê” disse uma voz distorcida no sonho. “Ele é aquele que vê”
“Tem certeza? Ele não é o primeiro” respondeu outra voz, feminina mas igualmente dissonante.
“Ele é quem esperamos”
“Então comece”

A escuridão do sonho se desfez em imagens. Milhões de imagens por segundo passando em alta definição pela mente de Horacio acompanhados de uma estranha névoa azulada.
Fora de sua mente Horacio se debatia na cama e suava, mas dentro dela ele repassava todos os movimentos de kung fu, muay thai e outras artes marciais que viu nos filmes.

“Porque gosta tanto desses filmes?” a voz de Ana trazia a lembrança dentro do sonho.
“Porque o cara, sozinho, consegue mudar tudo com as próprias mãos…é, acho que é por isso que eu gosto”

“…ele pode ver agora” 

Horacio acordou com a voz dissonante ainda ecoando em sua mente, o suor pingando em seu rosto e a fumaça azulada ainda percorrendo seu quarto antes de se dispersar por completo.

“Acho que é a B então a soma é…” interrompeu o raciocínio quando viu Marcio dar um tapa na cabeça de um aluno novo.
“Chega Marcio. Deixa o cara em paz” Horacio se levantou.
“Peraí, eu to ouvindo isso? O baixinho tá querendo me tirar é?” o brutamontes se aproximou.
“Para com isso cara. É prova hoje…” tentou dizer antes de ser empurrado para trás.
“Vou ter que te fazer chorar de novo?”
“Não. Mas eu vou ter que te fazer então?” Horacio esticou o pescoço para encarar os olhos do brutamontes. “Mas o que raios eu to fazendo?”

Marcio ergueu o punho no exato momento em que a professora chegou.
“Peguem lápis e caneta, prova hoje pessoal” disse ela sem olhar para a classe e jogando as provas na mesinha.
“A gente vai acertar isso na saída cara. Pode deixar” sussurrou Marcio.

“Parabéns Horacio. Você é um homem morto”

“Não tô nem começando cara!” gritou Marcio, sem camisa, após socar Horacio pela segunda vez.  Zonzo, ele apenas escutava a gritaria da roda que se formou ao redor deles na rua.
“Vai Horacio!”
“Deve ser a Ana” sentiu o gosto de sangue.
“Arrebenta ele Marcio!”
“Vou botar no Youtube hahahaha!

“Veja, garoto”  lembrou-se do sonho. Sentiu a respiração se tornando mais estável, o mundo parou de girar e não havia mais nada além do punho de Marcio.
Ele desviou com um passo para trás. Desviou do próximo mas não conseguiu escapar da cotovelada em seu ombro direito.

Um chute no lado esquerdo do corpo. O segundo foi desviado.

A platéia parou de gritar e ficou impressionada com o que via: Horacio passou de saco de pancadas para o vento personificado, desviando de todos os golpes.
Desesperado e cansado, Marcio correu para uma joelhada certeira na cabeça.
“Como…é lento” pensou quando viu o golpe se aproximando e deu um passo para a direita, desviando do golpe e dando a abertura necessária.

Horacio podia ver todo o treinamento de Marcio, desde as aulas criança até a academia do dia anterior. Eram seus movimentos, seus treinamentos e seus golpes.
“Não me faça te obrigar a chorar” disse quando aplicou o mesmo golpe no estômago do dia anterior. Sem ar, o oponente foi empurrado, e o golpe de misericórdia foi emendado.

O som do nariz se quebrando soou pela rua. Ele não tinha a menor noção de como jogou o cotovelo para frente.
Marcio caiu desmaiado no chão.  

“Ele vê”

e meaning “eternal.”

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