Queria meu controle remoto

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A porta do laboratório estava trancada. As luzes se apagaram e o som indistinguível de energia elétrica unido ao mistério da ciência surgia.
“A ideia foi sua Bárbara!”
“E você concordou, Tiago!”
“Claro. Que escolha eu tinha? Se discordar eu tenho que aguentar a cara feia”
“O que?” Bárbara sentia vontade de esganar o namorado. Tiago se preocupava somente em sobreviver ao seja-lá-o-que o cientista havia feito.

E então tudo se desfez num clarão esverdeado.

*zap*

“Vamos lá soldados! Hora de acabar com esses malditos nazistas!” gritou o sargento ao pelotão. Tiago podia ouvir a música dramática de guerra se erguendo e silenciando boa parte dos sons do campo de guerra.
Seu coração se acelerava e seu impulso inicial foi de avançar junto com seu pelotão para o inferno que era aquele vale.
“Pera ai, o que raios eu to fazendo aqui?” pensou ao ver o uniforme com o símbolo de médico e o rifle na mão direita.

“Isso não tá muito certo…Bárbara!” gritou procurando pela namorada mas a trilha sonora do filme de guerra era ensurdecedora e as trocas de frames para o combate confundiam sua cabeça. Por sorte Tiago identificou os longos cabelos loiros de Bárbara no chão.
Ela estava deitada com o rifle e disparando como se fosse a protagonista do filme. Talvez ela fosse mesmo.
“EI! O que tá acontecendo?” gritou quando se aproximou dela e se agachou. O som da música era tão alto que ela não pode ouvi-lo.
No céu surgiu um círculo esverdeado e composto por pequenas esferas que giravam. Outro clarão esverdeado.

*zap*

Música dissonante e lenta começou a tocar no corredor escuro. “Mas o que…e essa máscara? Por que eu to usando essa coisa? E por que eu to segurando uma motoserra? LIGADA” disse Tiago ao ver o pequeno grupo de adolescentes abrir a porta e correr para o fim do corredor. Decidiu ir até eles.

“Ei! Dá pra dar uma ajudada aqui? Por que estão fugindo? E…droga, saquei. Eu sou o psicopata que quer matar os adoleJESUS, MARIA, JOSÉ!” pulou para trás, milimetros atrás do machado que havia surgido. “Cuidado ai!”
“É você quem matou o Johnny ontem não foi?” Bárbara ergueu o machado mas parou no instante que racharia a cabeça do namorado.
Tiago foi rápido em tirar a máscara e jogar a motoserra para longe.
“O que raios você tá fazendo Tiago?”
“Eu? Eu não sai por ai tentando arrancar a cabeça das pessoas e…e…e quem é Johnny?”
“Não faço ideia!”

O círculo verde se formou entre os dois. Clarão esverdeado.

*zap*

O assobio cortou o silêncio da cidade numa melodia distante.
A porta do saloon foi aberta abruptamente quando o mal-encarado bandido de tapa-olho passou por ela. Atrás dele vinha a sheriff de cabelos loiros e olhos azuis: “A Mais Mortal do Oeste” de acordo com as lendas.
Por um instante Tiago se distraiu com a gaita e assobio da trilha sonora.

“Caramba, eu to num filme do velho-oeste?” pensou maravilhado até notar que sua namorada iria travar um duelo.
“Ei! Bárbara, o que tá pegando?” disse correndo até ela. “Acho que sou o mocinho da história finalmente…” ao se colocar ao lado dela Tiago percebeu que vestia as roupas de um simples vendedor, com direito a monóculo e bigode. Conferiu o cinto e nele não havia nem o coldre e nem a arma.

“Você tá atrapalhando Tiago”
“É sério que você tá brava comigo ainda? A gente tem que sair daqui”
“As duas vão papear muito ainda? Assim que o sino bater você vai virar peneira. Hahahaha” disse o vilão do outro lado, irrompendo em gargalhadas.

“Olha Bárbara, eu queria ir com você pra te pedir desculpas. Desculpa tá!”
“Sai daqui Tiago. Vai me atrapalhar de novo?” Tiago ignorou o vilão e se colocou a frente da namorada, e olhando em seus olhos disse: “Dá pra parar com isso? Só agora? A gente tem que achar a saída…”

O sino soou. Disparo. O círculo esverdeado

*zap*

Porta se abrindo. Som de risadas.

Tiago fechou a porta e as risadas cessaram, então decidiu abrir novamente. Mais risadas, ainda mais histéricas.
Sem escolha, entrou na casa e tentou se acostumar ao campo de visão limitado. Em hipótese nenhuma poderia encarar a câmera diretamente ou a platéia.
“Olá, pessoal?” disse ele acompanhado de risadas mais amenas.
“Já estou indo, já estou indo” o senhor de meia-idade desceu pelas escadas e logo em seguida foi ovacionado por aplausos.
Mas é a cara do meu sogro…Senhor Smith, como vai?” Tiago disse fazendo um aceno com a cabeça.
“Ah, se não é você Tyson. Veio buscar ela não é?”
“Err…sim, é. Isso mesmo” concordou sem saber ainda o roteiro.
“Mas não fique em pé ai. Sente-se, sente-se. Sabe como as mulheres demoram” disse o sogro oferecendo um lugar no sofá enquanto sentava-se na poltrona.

“Ah, ela já está pronta!” disse o sogro ao ver a garota loira descendo as escadas. Aplausos a acompanharam no caminho.
“Mas essa…acho que houve um mal-entendido aqui, eu vim buscar a Bárbara” Tiago tentou explicar.
“Como assim Tyson?” a garota estranha perguntou. Risadas irromperam da plateia.
“Err…cadê a Bárbara?” disse ele, sem-graça.
“Quer dizer, Barbara?” corrigiu o sogro
“É, Bárbara”
“Barbara, você quer dizer” corrigiu novamente
“MAS TANTO FAZ!”

Bárbara desceu das escadas, a platéia aplaudia e assobiava para a bela garota loira usando um vestido vermelho.
“Não acredito Tyson, você marcou um encontro com nós duas?” gritou a suposta irmã de Bárbara. A platéia irrompeu em mais risos.
Tiago correu até o lado de Bárbara e sussurrou: “Mas que raios de programa é esse?”
“É outra sitcom sem graça e previsível. Segue o roteiro…”
“Mas eu não…”

*zap*

Tiago se sentia tonto, confuso e extremamente pressionado no meio da platéia. A confusão de câmeras, pessoas pulando ao som da guitarra e closes rápidos no baixista, no baterista, no guitarrista e por último na vocalista loira.
“Bárbara!” gritou e tentou se focar em direção ao palco. Seu andar era constantemente interrompido pelos empurrões dos fãs enlouquecidos, mas eventualmente alcançou a grade que separava a platéia dos seguranças, que separariam ao meio qualquer um que ousasse atravessa-la.

“Ei ei garoto, não pode passar” ordenou um dos brutamontes de óculos escuros.
“Eu conheço ela, me deixa passar!”
“Haha, claro. Todo maluco fala que conhece a Bar. Se afaste”

“Quando que isso vai acabar? Eu chego perto dela e tudo muda…o que tá rolando?” Tiago segurou a barra metálica da cerca até sentir dor nos dedos.

*zap*

“A noite era fria e as ruas estavam desertas. Tudo que me aquecia era o meu casaco, meu chapéu e meu charuto que havia acabado de acender.
Era o caso que poderia ser a minha redenção após tantos anos expulso da polícia, pena que eu não sabia que ele me custaria mais que uma licença…e por que raios eu to falando sozinho?”  Tiago se deu conta do monólogo no meio da frase.

Havia a rua deserta descrita pela narração e o frio era igualmente desconcertante. A trilha sonora recheada de jazz liderada pelo saxofone e a ausência de cores além do preto-e-branco tornavam o filme no perfeito Noir.

E eu nunca gostei desses filmes…ahhhh, Bárbara, cadê você? Seguindo a minha pista eu encontrei a trilha de sangue que me levaria ao meu último caso…e eu to narrando a parada de novo!
Tiago seguiu a trilha que virava num beco escuro.

“E então eu apa…nananananão, eu não apago agora não!” interrompeu a si mesmo, girou o corpo e segurou a barra de ferro que o atingiria pelas costas.
“O bandido era maior e mais forte do que eu e em pouco tempo perderia as forças para segura-lo ali. A joelhada no estômago me tirou o ar. Eu teria morrido se a detetive Barbara não tivesse atirado no meliante”

Bárbara tremia ao segurar o revólver.
“Barbara, você me sal…”

*zap*

“Chega disso…chega!” Tiago ao abrir os olhos se viu na entrada de uma boate inundada em luzes piscantes, bebida e mafiosos com suas machadinhas. A música oriental cobria a pulsação da música eletrônica e os closes entre a protagonista e os vilões eram longos e indiscretos.
No centro havia uma garota loira empunhando uma katana e vestindo uma berrante roupa amarela.
“Esse festival de referencias tá uma bagunça…eu vou acabar com isso” disse ao correr para a mesa em que Bárbara estava.

Dois dos mafiosos se viraram para o garoto vestido de monge e o atacaram.
“Rá, aqui pelo menos vou poder dar uns socos…Ai!” gritou quando o primeiro oponente cortou seu nariz superficialmente. Tiago socou o ar algumas vezes antes de ser derrubado pelo chute do segundo oponente.
“Vou ficar nisso pra sempre!” se desesperou e fugiu até a saída do estabelecimento. A luta de espada contra machadinhas prosseguiu sem o jovem monge.

*menu*

“Qual é o filme agora? Ficou faltando o que? Musical? EU NÃO SEI CANTAR!”

O mundo estava vazio, um branco infindável e inóspito. Exceto pelo homem de terno e o borrão distante no horizonte vazio.
“Temo que tenha chegado no fim da programação hihi” disse o homem segurando um controle remoto enquanto sua voz reverberava graças ao microfone colocado na altura da gravata.
“É você! Você que tá aprontando isso?” Tiago agarrou o senhor pelo colarinho e ergueu seu punho direito.
“Ma ma, não exatamente. Estou tentando te ajudar a terminar o…os filmes” respondeu piscando os olhos diante do punho.
“Por que?” Tiago baixou o braço lentamente.

“Porque são o casal mais problemático que parou por aqui hihi” Tiago achava sua voz estranhamente familiar.
“O que é Aqui?”
“Estamos no Menu Principal e não vou tentar te explicar o estúdio mas vou resumir: Vocês dois estão em uma…videoteca. Um DVD player talvez”
“Ahn? Err…Ok, ok. Vou aceitar isso por enquanto” Tiago disse largando o homem. “Lá longe. É a Bárbara?”
“Sim. Ela está lá”
“Por que sozinha?”
“Você é o que impede ela de terminar os filmes. Eu tenho de resolver o problema com você e não ela”
“Como? Eu não sei o que quer dizer” Tiago apertava os próprios punhos com força.
“Os casais costumam aparecer quando acabaram de discutir. Existe algum assunto que ficou pendente?”
“Talvez…é pessoal”
“Ma eu não vou poder te ajudar se não disser, hmm?” disse o homem fazendo um som parecido com um ronronar.
“Ela vai pra uma faculdade no interior ano que vem. Eu não queria que ela fosse…sozinha, então pedi pra ela esperar eu passar no vestibular e…”

“Não, espera ai hihi. Acho que ja entendi: sua namorada está se tornando tão independente que tem medo de perde-la. Ela era a garota nada popular na sua escola que depois que o conheceu se tornou outra pessoa, alguém mais extrovertido, autoconfiante, independente.
E então, cada personificação dela nesse mundo representa não só o seu medo de ve-la seguindo seu caminho sem você mas também o seu grande anseio de ser o centro das atenções. Acertei?”

“Você é bom nisso” disse Tiago levantando os ombros.
“Ninguém faz roteiros originais hoje em dia hihi”
“E agora…o que eu faço? Eu estava errado, gritei coisas ruins pra ela”
“Pedir perdão a ela é um começo. Aceitar sua escolha é um bom meio. O final você descobre por si mesmo. Ok, vai pra lá, vai pra lá…” o homem de terno desapareceu ao mesmo tempo em que Bárbara se aproximou.

“Oi. Dia doido né?” ela disse se mantendo cinco passos longe do namorado.
“É…Bárbara” Tiago coçava a cabeça.
“O que foi?” se aproximou mais um passo.
“Fui um idiota. Não posso deixar que fique parada por minha causa” Tiago aproximou outro passo.
“Não, tudo bem. Posso esperar mais um semestre e vamos juntos. Mais um passo.
“Não Bárbara. Eu sou um controlador egocentrico e babaca. É seu futuro e eu te apoio em tudo. Então se qui…” tentava terminar a frase mas foi interrompido pelo abraço de Bárbara.

“Você me visita por lá e eu vou tentar vir pra São Paulo uma vez por mês”
“Justo. Me desculpe, ok?”
“Pode deixar” se beijaram e a programação prosseguiu.

*zap*

A oficial Barbara e o médico Tiago se separaram do beijo a tempo de mirar e atirar na infantaria inimiga antes dela alcançar a trincheira dianteira. Cada tiro era sincronizado e o tom épico da trilha sonora os impulsionava para o clímax:

Um esquadrão de tanques alemães invadia as cercas de arame e em minutos dissipariam toda a resistência aliada.
Os dois se ergueram e dispararam com suas vidas.

Eles comemoraram juntos com outro beijo quando os aviões aliados cortaram o céus e dizimaram os tanques.

*créditos*

O beijo da mocinha e do possível assassino deixou os adolescentes confusos. “Ela está beijando o cara que está tentando nos matar?”
“Ei, olha. É ele!” disse um deles ao apontar para a entrada do corredor, onde estava um outro homem vestido com máscara de hóquei e motoserra.
Tiago e Bárbara sorriram, seguraram ambos o cabo do machado e num só golpe racharam crânio e máscara.

Outro beijo.

*créditos*

O tiro lançou o chapéu de Tiago para longe. O beijo parecia mais importante que o duelo.

Num instante os dois estavam de frente um para o outro, no seguinte estavam com revólveres em punho e disparando contra o bandido.

O restante da gangue saiu do saloon e um por um cairam diante dos tiros do casal. A sheriff jogou o chapéu para cima e abraçou seu amado.

*créditos*

Tiago se lançou aos pés de Bárbara e aguardou até a volta dos comerciais. No momento certo se declarou e disse: “Só tenho olhos para você Barbara. Nunca houve ninguém além de você”.
A platéia irrompeu em um sonoro suspiro “owwwwwnnn”.

O casal se beijou e o episódio chegou ao fim com aplausos eo jargão final do sogro.

*créditos*

O fã alucinado pulou a cerca, derrubou o segurança e alcançou a cantora. Eles se encararam e se beijaram.
A platéia foi a loucura.
Barbára prosseguiu no vocal acompanhada de seu fã número um.

*créditos*

“Não senti mais frio quando beijei ela. Era como se tudo se resolvesse num instante, o mundo tomou cor e eu tinha tudo o que poderia querer: um assassino impedido de cometer mais crimes, a mulher dos meus sonhos e calor…finalmente…”

*créditos*

Bárbara retirou a katana do peito do último mafioso enquanto Tiago desligava a música e acendia as luzes.
“Segurar a porta foi esperto” disse ela ao largar a espada e abraçar o namorado.
“Não. Nem foi nada”

O beijo final foi acompanhado de todas as músicas de encerramento dos filmes e com o canto dos olhos Tiago enxergou o letreiro subindo na tela com seus nomes e os de inúmeros atores e produtores que não existiam.

*créditos*

De volta ao laboratório, o abraço se desfez lentamente. Mesmo sem a música, closes ou narração, este momento durou a eternidade necessária.
“Ei, vocês estão ai. A energia tinha caído e voltou agora, o que estão fazendo?” disse o cientista, pai de Bárbara, ao abrir a porta.
“Achamos uns filmes” Tiago disse sem tirar os olhos de Bárbara.
“Ah, é coisa velha. Ficou encostado aí depois da faxina em casa”
“Eu gostei deles” sussurrou Bárbara.
“Clássicos” sorriram os dois.

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