Reforjado

Forja
Marcus teve um ano novo complicado. Após receber o mais novo protótipo de seu chefe ele descobre que recebeu não apenas tecnologia: mas sim um legado.

Forja dos Tempos

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Marcus acordou com dor de cabeça e a vista embaçada.
“Sonho esquisito. Caramba Marcus, o que foi que você bebeu dessa vez?” pensou ao tentar se sentar na cama. Parou de tentar quando viu a parede do que não era o seu apartamento.

O quarto era escuro, não possuía janelas e todas as paredes tinham manchas de bolor e infiltração. “Só uma saída nesse quadrado. Aquela porta…” Se virou e colocou os pés no chão.
Sentiu os cabelos da nuca se eriçarem quando não sentiu os pés por um segundo. Pareciam mais pesados que o normal, principalmente o direito. “Alguém colocou algo na minha bebida? Mas eu bebi ontem a noite? Não era ano no…” 

Marcus saltou da cama e verificou que roupa estava usando: a mesma jaqueta de couro e roupa escura que sempre usava mas com um detalhe peculiar.
“Está chamuscada. Meu Deus, não era um sonho!” As memórias voltaram feito uma locomotiva e o fizeram cair sentado na cama novamente.
“Forja?”

Alguém bateu na porta três vezes. “Marcus? Já está acordado?” e a abriu.
O ex-policial segurou o homem pelo braço direito e o jogou contra as costas dele, empurrando-o contra a parede.
“Quem é você? O que fizeram comigo?”
“Calma lá amigo. Nossa…ela tinha dito que era seu prato preferido” respondeu olhando para a bandeja e prato de comida caídos no chão.
“Ela? Quem é…” a última imagem finalmente chegou a tona. “Laura? Ela está viva?”
“Sim senhor, e se puder me soltar a gente pode resolver isso aqui como…” Marcus largou o braço do homem de jaleco e se afastou lentamente. “…cavalheiros. Marcus, por favor se sente”
“Posso ouvir em pé” cruzou os braços.
“Não quero arriscar” respondeu ele estendendo o braço em direção as cadeiras de madeira.

Após ambos se sentarem o  homem de jaleco pegou um cigarro e o colocou na boca.
“Lembra-se exatamente do que aconteceu naquela noite Marcus?”
“Eu fui abordados por agentes, reagi, vim parar aqui”.
“Mentir pra mim pode até me ofender Marcus, mas se não lembra eu tenho uma fita com você em chamas, de armadura, praticamente voando do prédio”

Os olhos de Marcus se desfocaram ao se lembrar do fogo que não o consumia e da fúria que o fez matar os agentes. O estranho notou isso e interrompeu seu pensamento: “Ok, estou pegando pesado com você. Meu nome é Nikolai, vamos lá ver a sua família”
Marcus ergueu a cabeça e olhou para o estranho. “Isso não é uma piada, não é? Nem uma artimanha? Se brincar com isso eu vou…”
“Me matar. Eu sei. Vem comigo” se levantou e o conduziu para a porta do quarto.

Os corredores eram escuros e apertados, recheados de pessoas sujas e amedrontadas que se fechavam em seus quartos ao notar Marcus.
“Quem são essas pessoas?” perguntou o ex-policial.
“Sobreviventes” respondeu sem se virar para Marcus.
“Sobreviveram a…?”
“Sociedade. Bem-vindo a Velha Parnasis” Nikolai ergueu os braços para o alto como num ato religioso e rapidamente os baixou.
De relance Marcus notou que muitos desses sobreviventes usavam próteses metálicas: braços que reluziam na fraca luz das antiquadas lâmpadas e pernas que rangiam ao se moverem para dentro de seus quartos.

“Posso já te adiantar umas coisas antes que você recupere a memória” Nikolai aguardou novos protestos mas Marcus estava absorvido pela realidade do local. “Há um cinto praticamente enterrado no seu corpo…”
“Cinto? Tá falando do cinto que o doutor me deu?” respondeu voltando a si.
“É, talvez seja esse, não importa”
“Como não importa? Eu…o que eu tava fazendo mesmo?”
“Seu corpo agora está diferente. Sua pressão sanguínea é surreal, quebrei todas as seringas quando tentei te dar soro e sua atividade cerebral é tão alta que possivelmente poderia deixar o lugar todo aceso só pensando pudim artificial que comeria se ainda estivesse lá encima”
“Então eu sou…um monstro?” Marcus parou de andar.
“Isso é você quem decide, mas aposto que sua família não pensará assim” Nikolai abriu uma das portas do corredor e fez menção de deixar Marcus entrar primeiro.

Marcus sentiu o coração bater tão acelerado que nem percebeu as lágrimas escorrendo. Parado, congelado diante de sua mulher e sua filha, foi a pequena Iria que correu até ele e o abraçou. Laura se juntou ao abraço em seguida. As duas vestiam roupas de tom cinzento semelhantes a de operários em Nova Parnasis.
“Laura, meu amor, como? Como vocês…”
“Shhhh. Tá tudo bem agora” respondeu ela com a voz embargada.
Ele se agachou para abraçar a filha e sentiu a pressão enorme que braço direito dela fazia. Ao se desvencilhar do abraço notou que a pequena Iria tinha um braço metálico cinza no lugar do antigo braço direito. “Filhinha…seu, o seu braço”
“É, ele é novo. Tio Nikolai trocou porque o outro tava enferrujado” disse ela sem perceber o espanto do pai.

“Vou deixar vocês a sós. Depois a gente se fala Marcus” disse Nikolai saindo e fechando a porta.
A família tinha muito o que conversar.

“Eu vi eles atirarem em você. Você caiu no abismo…” Marcus segurava Iria no colo. Ela estava distraída com um obsoleto holograma infantil. Os três se sentaram na cama empoeirada do quarto.
“Aqui é o fim daquele abismo. E…sim, eles atiraram” Laura puxou a manga esquerda e mostrou parte da gigantesca cicatriz que se extendia do braço até o peito. “Nikolai é quem arma as redes e salvou todas essas pessoas aqui embaixo. Infelizmente a Iria bateu numa pedra no caminho e…o corte foi muito grande”
Marcus baixou o olhar para a filha desconectada da conversa, brincando com seu holograma interativo.

“Esse é o exílio então? Eles simplesmente jogam as pessoas aqui? Deveria estar lotado”
“Poucas redes. A maioria não sobrevive” Laura baixou a cabeça. Marcus colocou a mão sobre o rosto dela e sorriu.
“Não tem noção de como estou feliz Laura”
“Marcus, também senti sua…”

A porta se abriu num chute.
“PRA FORA. AGORA! Ele está aqui!” Nikolai gritou e correu para o próximo quarto.
“Ah não. Vamos Iria, pegue suas coisas” Laura se levantou da cama e correu até a mala previamente arrumada.
“De novo mãe? Eu tenho medo dele” disse a pequena com os olhos marejando
“Ele quem?” Marcus levantou os ombros e pressionou os punhos inconscientemente.
“O Ceifador.”

O hotel fazia parte do que mais se parecia com uma cidade de velho oeste. Sendo este uma das únicas edificações à vista do ex-policial, todo o resto eram casas de madeira aos pedaços e cinzas no chão, simulando areia.
Era noite mas tudo era claro graças ao holofote potente do Ceifador.

O Ceifador.
A nave ocupava o grande espaço entre a parede do abismo e o vidro fosco que separava Parnasis do mundo exterior.
“Essa nave!” Marcus travou antes de entrar no túnel que se abria na parede de pedra.
“Marcus! Vem logo” gritou Laura com Iria em seu colo.
“Não posso deixar isso acontecer” dezenas de pessoas ainda saiam do hotel e se acumulavam na estreita entrada da caverna.
Deixou a mala no chão e encarou o gigantesco veículo se aproximando. Sentiu os olhos se inflamarem e apertou o botão do cinto que havia acabado de se materializar em sua cintura.

“Forja…” ouviu sua voz gutural novamente, revivendo o momento em que sua pele se transformou no encouraçado vermelho. Sua visão mudou para o padrão avermelhado e multifocal dos olhos de besouro da noite de ano novo.
Seu corpo estava em chamas vivas, mas não sentia nenhum calor além do ódio e raiva.
“Uhhhhhhhhhhgrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaarrrr!” urrou e saltou.

Aterrissou poucos metros antes do cockpit. As torretas superiores imediatamente dispararam contra Forja mas suas balas apenas explodiam em sua couraça enflamada.
“Tenho que parar ele antes que acione a metralhadora principal” pensou Marcus mas Forja tinha apenas um objetivo: esmagar tudo.
Correu e arrancou as torretas com suas próprias mãos e ao alcançar o cockpit, atravessou o vidro blindado com o braço direito e puxou o restante da janela para si, a desfazendo em estilhaços.

Só restava um piloto. O restante da equipe fugiu da torre de comando.
“Vim reforjar este mundo. A foice agora se tornará outra coisa…” agarrou o piloto pelo colarinho e começou a pressionar seu pescoço.

A nave se ergueu subitamente. Com a força máxima ela já estava acima dos prédios de Nova Parnasis em cinco segundos, com a ponta direcionada para o céu.
Forja foi propulsionado metros acima da nave. Ela virou para trás, ficando de ponta-cabeça e expondo a base da Ceifadora.

Marcus sentiu as chamas mudando de sentido e a própria gravidade parecia se alterar ao seu redor. Seu olhar vermelho revelava o caminho a ser traçado e a arma era óbvia.

Forja jogou o pé direito para frente e num sussurrar gutural as chamas explodiram atrás de si. Com o impulso ele atingiu a velocidade do som.
Nova e Velha Parnasis viram de longe o pequeno ponto vermelho atravessando uma nave gigantesca com seu chute.

Ceifadora explodiu no ar.

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