Gavir, o tolo

orc battle leader colored
 
Gavir não era o tipo de orc que gostava de pagar pela carne humana no “Cace e Pague” e mesmo que exigisse o esforço do Guerreiro ele sentia falta da época em que seu povo guerreava com os humanos.
Cada orc lutava para ter a glória do combate e a carne ao mesmo tempo.A última lanceira que havia matado era diferente da maioria daqueles que havia pagado: sua carne era a melhor que havia provado em anos. Quase sentiu pena quando ela praticamente sumiu na mesa de sua grande família, mas como era o único capaz de pagar por carne naquela casa ele pegou os melhores pedaços.
O olhar corajoso da garota mesmo depois de ter torcido seu pescoço passou a atormentar suas noites.– Que orc sente pena de humanos? Ponha-se no lugar Gavir! – gritava em seu pensamento e rolava na cama de palha.
Na manhã seguinte ele explorava a estrada principal para além dos limites de sua cidade.
Colocou a culpa de seus tormentos no saudosismo dos tempos de guerra e então havia decidido matar e conseguir uma carne “de verdade”.
Era quase o pôr-do-sol quando viu no horizonte uma nuvem de poeira se aproximando pela estrada. Pegou seu machado de guerra com as duas mãos e aguardou.
Estavam a cavalo e pararam diante do orc.
– Quem vem lá? – perguntou Gavir.
– Orcs do leste trazendo notícias importantes – Gavir não sabia se o sotaque na língua daquele orc encapuzado era realmente do leste.
– Que noticias?
– Isso não interessa a você – o segundo orc parecia nervoso e sua língua era ainda mais arrastada.
– Sou Gavir o filho de Garak. O Quebra-crânios e Matador de reis. Vai me dizer ou pretende perder a cabeça antes?
– Os humanos do norte querem guerra. Precisamos de um exército!
Os orcs do leste pareciam tão estrangeiros que não se assemelhavam em quase nada com seus semelhantes do oeste.
Fazia décadas desde que a cidade de Gavir, que mais se parecia com uma vila, recebia alguém de tão distante e nem mesmo na última guerra com os humanos os dois exércitos orcs se encontraram por mais de dois dias. Mas Gavir havia visto orcs do leste antes e nenhum deles usava capuz e vestes escuras como aqueles cinco.Apesar disso ele ignorou a desconfiança e levou os cinco para a cidade – Nenhum humano seria tolo o suficiente pra vir aqui.
Eles entraram na tenda do chefe da vila para se reunirem com o Conselho. Gavir já havia feito parte deste mesmo conselho, mas agora era velho e não tinha mais força do que os membros mais jovens.
Ganhava uma taxa de tributos para manter-se por perto da vila pois de vez em quando os orcs mais novos pediam seus conselhos de guerra.
Gavir sabia que nunca seria mais do que um substituto se houvesse algo com o Conselho e sabia que seus últimos dias não tinham glória alguma. – Apenas pagar para matar
Na manhã seguinte voltou atrás quanto a promessa anterior pois não sonhou mais com a garota morta e foi a floresta caçar mais um humano após pagar no guichê.
As trombetas soaram antes que pudesse alcançar a região mais densa da mata fechada. – Batalha? – sentiu a euforia nostálgica de um campo de guerra e correu para sua vila.
Ela estava em chamas.
Os truculentos orcs do leste haviam se multiplicado e ateavam fogo as casas quando não eram interrompidos por poucos guerreiros que eram rapidamente obliterados por suas grandes espadas.Correu de volta para a floresta.
– É um covarde! Um velho covarde – gritava consigo mesmo mas seu corpo ignorava sua honra. Mais tarde se pegou dizendo que deveria se esconder e nunca mais sair daquela floresta.
– Não! Eu vou voltar e vou ter vingança! –  e só após esse instante se deu conta que sua mulher e filhos poderiam já estar mortos.
Se o orc conhecesse o que fosse chorar ele teria o feito embaixo daquele grande salgueiro, então apenas baixou a cabeça entre os joelhos.
Tramava e lembrava do que aprendeu no campo de batalha.
Ouviu passos leves e vozes abafadas falando no idioma comum. Não eram orcs.
– Tem certeza que é ele? – era uma voz masculina.
– Absoluta! Foi esse orc que matou a minha irmã! – a segunda voz era feminina e extremamente parecida com…
 
– Querem vingança seus montes de carne? Então venham pegar! – brandou no idioma dos humanos na direção dos sons e ergueu seu machado.
 
Dois vultos baixos se aproximaram e apontavam lanças para Gavir.
– Vai pagar pelo que fez seu monstro verde –  a garota tinha a mesma altura da carne do outro dia. O garoto não era muito mais alto que ela e parecia tão verde que nem barba tinha.
– Querem vingança ou liberdade? – disse em tom de desafio. Os dois pareciam confusos.
– O que quer dizer, besta? – o garoto dava dois passos para trás e dois para frente o tempo todo.
– Se me ajudarem podem fugir livremente para longe daqui. Só precisam fazer uma coisa…
 
 
Gavir sentia vontade de matar os humanos ali mesmo e abastecer sua casa com tanta carne que não precisaria comprar mais nenhuma por meses. Mas precisava deles e sabia que sozinho não poderia matar os orcs do leste e seus futuros reforços.
Planeja-va matá-los logo depois de arrancar a cabeça de cada um dos estrangeiros.
Um pequeno grupo de humanos com lanças o seguia com cautela, eram aproximadamente vinte pessoas – Vou joga-los na frente deles e matar tudo o que se mover. Vou ganhar de volta meu lugar no conselho. Vou ser idolatrado. Vão fazer uma estátua minha – ele se alimentava desses pensamentos para não prestar atenção no cheiro suculento dos humanos.
Gritou para ordenar o avanço contra os cinco orcs que se aqueciam em volta da fogueira no chão. A noite era fria e a fumaça saia da boca de Gavir quando avançou com seu machado.
Tinha a certeza de que os humanos avançavam contra os orcs num movimento tão coordenado que pareciam ser um só. Saltou com o machado para cima de um dos estrangeiros. O golpe atingiu o elmo de raspão, o derrubando e revelando o rosto do orc.
Não era um orc. Era um humano loiro.
– Mas o que… – sentiu uma lança transpassar sua barriga. Os humanos da floresta também descobriram que não eram orcs e resolveram trair a frágil aliança.
Girou o machado e cortou somente o ar. Mais uma lança ficou presa em seu corpo, na panturrilha direita.
– Era pra eu ser um herói! – gritava em seu idioma natal.
Os falsos orcs atacavam junto com os humanos e formavam um círculo de estocadas e cortes. – Era pra eu matar vocês!
Sentiu as lanças transpassarem seu corpo e as espadas abrirem rasgos em sua densa pele esverdeada. -Eu…eu ia matar cada um! Sacos de carne – girou novamente e perdeu o machado.
Caiu de costas no chão duro e viu seu mundo começar a escurecer.
– Cento e vinte quilos, mas não vale nada-  a irmã da sua última compra cuspiu e Gavir pode ver o rosto da garota morta. Era mais aterrorizante ainda.
Sangrou até a última gota e com um único pensamento:
– Gavir, o último tolo__________________

Esse texto surgiu de um desafio literário da finada skynerd e sua proposta era a seguinte: Pegue um conto que já foi escrito antes em outro desafio e escreva uma continuação.
Escolhi o texto do Carlos Mofatt onde a história contava sobre uma criatura (que eu adaptei para orc) que mata uma lanceira para se alimentar.

Quer conferir o texto original? Acesse aqui.

Vinguei a lanceira pelo menos rs .Carlos é escritor de ficção científica e seu projeto “Operação Black Hole” é um dos poucos escritos de hard science fiction brasileiro que eu vejo por aí de qualidade.
Você pode conferir mais do trabalho dele aqui: http://www.carlosmoffatt.com.br

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