Velho Oeste

N varreu o saloon horas antes de abrir. Na noite anterior ninguém veio se hospedar e o movimento geral não havia se alterado da rotina.

“Mais um dia. Mais uns dólares” murmurava. Coçou a barba, que crescia irregularmente desde a mudança para Austin, e passou o pano úmido na bancada do bar. Tirou a bengala de cor preta, pendurada no balcão e a posicionou ao seu lado.
Era o único empregado e o próprio chefe. O mais próximo que podia chamar de funcionário eram a senhora caolha que pagava para limpar os quartos e um jovem entregador de bebidas.

– A velha não veio hoje de novo. O moleque não chegou ainda…só me falta vir uma tempestade também” o dia havia começado ranzinza para N.
– Dia, seu Nathan” disse Bob, o mais assíduo cliente do Saloon entrando as sete da manhã.
– Bom dia Bob” respondeu N, já pegando o uísque barato que o balofo açougueiro sempre pedia.
– Ah! Trem bão, matar minha sede” suspirou Bob depois de uma longa golada na bebida. – Cê ficou sabendo das última, Nathan?
– Não amigo. Não fiquei – N havia voltado a passar o pano no balcão.
– O delegado tá sumido desde onti. E tem mais, ouvi fala que os irmão Johnson tão solto – N derrubou uma das garrafas ao ouvir o famoso nome dos irmãos bandidos. Rapidamente se agachou e juntou os cacos de vidro.

– Ele deve ter ido atrás deles. O delegado não formou uma milícia pra isso?
– É o que dizem por ae, né. Mas que o delegado não volto desde onti é verdade

N refletiu sobre essas palavras enquanto terminava de limpar a bancada do bar. Aos poucos os clientes rotineiros adentraram no saloon, preenchendo o vazio do lugar.
Ao meio-dia o saloon já estava cheio e o piano desafinado tocava algo.

“Dia comum” pensou N ao servir mais um cliente.

O burburinho comum do lugar cessou quando um homem ensanguentado adentrou no local.
– Fujam. Eles… – E caiu na poça de sangue ele mesmo formou.
As portas do saloon se abriram repentinamente. – Todos parados! – disse um truculento pistoleiro, de revólver em punho ainda fumegando e com o cheiro acre de pólvora.
– A gente só quer o Norton! Quem disser onde ele tá ganha a vida hahahaha – gargalhou um segundo bandido, muito menor que o primeiro mas igualmente armado.

-Acho que ele não se encontra aqui, senhores – N se aproximou dos dois bandidos lentamente, mancando e usando sua muleta de madeira escura.
– É o dono daqui? – Perguntou o Johnson franzino.
– Sou. Me chamo Nathaniel – N fez uma mesura com seu chapéu surrado.
– Então sabe quem é o Norton? Cadê ele? – O Johnson truculento questionou.
– Calma ai, esse cara não é familiar maninho? – O franzino  se aproximou de N lentamente, com o revólver em punho.

N havia mudado desde que tinha abandonado a velha vida. Grande bigode, barba bem feita e um óculos sem grau.

O dono do saloon pressionou a mão direita na muleta, aguardando um movimento mais arriscado do oponente.

– Vá pros inferno Johnson! – Gritou Bob sacando de seu revólver e disparando a esmo nos dois bandidos. Errou os primeiros tiros mas antes que o Johnson franzino reagisse, N deu um passo a frente e com a muleta atingiu sua mão direita.
Aproveitou do instante de pânico do truculento bandido e empurrou o Johnson menor sobre ele. O Johnson maior disparou contras as costas do próprio irmão.

O cheiro acre da pólvora era intenso e a fumaça quase impediu que todos no saloon vissem N apertar um botão na muleta e retirar uma lâmina curta dela.
Quando o Johnson franzino tombou para frente, N fez um corte diagonal no instante seguinte.

– Nor…ton – disse o bandido ao pressionar a garganta que jorrava sangue. Tombou assim como seu irmão.

– Meu nome não é Norton. Sou apenas N, sempre fui N – murmurou o espadachim e em seguida andou até a janela para verificar a entrada.

O resto da gangue dos Johnson aguardava do lado de fora, mas estava apreensiva ao ouvir os tiros e aguardando seus chefes saírem do saloon com o ex-membro. O traidor.

– Tem mais seis deles lá fora. Alguém mais tem uma arma? – Perguntou N aos seus clientes. Mas eles se mantiveram calados, estupefatos diante do que viram – Ei! Se querem sobreviver a esses lunáticos precisam me responder!

Mais duas pessoas responderam e mostraram seus revólveres. Mas eram civis. Eram pessoas comuns que não tinham sido escolhidas para a tal milícia do sheriff.
– Ok, vocês dois me deem isso. Agora, vão para o fundo e se protejam. Isso não vai ser seguro pra ninguém – N pegou os dois revolveres, fincou a lâmina-muleta no chão de madeira e apontou para a entrada.

Cinco minutos. Um dos bandidos entrou no saloon com uma espingarda em punho.
N disparou todas as seis balas com a mão direita. Quando terminou não havia mais um bandido a se opor, apenas um corpo que caia do salão para a rua. O espadachim jogou o revólver no chão e jogou o segundo na mão direita, virou todas as mesas de pôquer e aguardou atras de uma delas.

O restante da gangue, cinco pessoas, adentrou de uma vez no saloon disparando com rifles, espingardas e revólveres em todas as mesas que pareciam servir de cobertura.
Dispararam mas N não revidou, apenas aguardou ainda bem protegido.
– Mas já fugiram? Revirem tudo! – disse o aparente novo líder da gangue.

N aguardou o primeiro dos bandidos, que utilizava uma espingarda, começasse a se aproximar. Restando dois passos para que atingisse a mesa que usava de cobertura, N se levantou e disparou no líder dos bandidos: três dos tiros na cabeça.
O dono do saloon se virou para o bandido de espingarda que estava prestes a disparar e lhe aplicou um chute entre as pernas, o desarmou e disparou ali mesmo no peito do inimigo.

Quatro restantes.

N correu e disparou a queima-roupa no bandido mais próximo que usava um revólver na mão direita. Outro bandido de revólver disparou contra N, mas o espadachim usou o corpo da mais recente morte como escudo-humano. N gastou as três balas restantes do revólver no peito do inimigo mais próximo.

– Morra Norton! – disse o membro da gangue que estava mais distante, usando o rifle, ao acertar o braço direito do espadachim de raspão.  O outro bandido restante disparava no corpo-escudo a esmo.

N empurrou o corpo com força, atingindo o bandido de revólver. Correu na direção do gangster de rifle e no caminho tirou a lâmina do chão. Em segundos os dedos do bandido já voavam para fora do corpo, em outro instante a lâmina estava encravada no estômago do inimigo.

Um.

– Norton…não me mata cara, por favor, não me mata – O bandido restante tentava disparar mas seu revólver já estava descarregado. Ele chorou copiosamente quando viu N ajeitar o chapéu e se aproximar lentamente.

– Eu lhes avisei. Eu avisei a toda a gangue. Eu avisei aos Johnson. Não venham me procurar ou matarei a todos…eu lhes avisei – N fechou os olhos, se virou de costas e fincou a lâmina no bandido chorão – Cumpri a minha promessa.

N ficou olhando para seu saloon por alguns minutos até os clientes, que haviam se escondido nos quartos, começarem a sair e verificar o que aconteceu.

– Bob. O lugar é seu – Disse ao jogar a chave do saloon para o seu mais devoto cliente – Venda ou cuide dele. Não me importo. Adeus

Deu meia-volta, ajeitou o chapéu mais uma vez, pegou a bainha da lâmina e a acoplou, tornando-a numa bengala novamente. N saiu do saloon para se tornar a mais misteriosa lenda de Austin:

O espadachim do oeste.

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