Extermina Zumbi S.A

Survivor

– Acho que não entendi bem. Você é um exterminador de zumbis a domicilio? – Ouvi a voz do homem que dirigia o carro. Sorri e acenei positivamente com a cabeça – Cara, que doidera…
Sua voz parecia abalada, acho que era ligado a pessoa que caiu diante do vírus.

Meu trabalho é lidar com o que as pessoas não conseguem lidar.

– O que seria fora do normal? Um mundo onde os mortos se levantam para lhe devorar? Ou o fato de que o governo caiu tão facilmente em poucos meses nessa Inglaterra tão organizada e civilizada.
– Eu dar carona pro cego que vai exterminar um zumbi na minha casa. E que cobra por isso! – Ele foi direto ao ponto.

Dei risada. Acho engraçado quando diante de tantas coisas incomuns as pessoas ainda notam somente o que lhes impressionava no mundo antigo.
No mundo antigo, um inválido ou deficiente que fizesse algo minimamente corriqueiro era observado com admiração, alguém capaz de vencer as dificuldades. Mas no mundo novo as pessoas dizem: “Como você pode estar vivo se é cego?”

– Digo, sem ofensa, mas como um cego sequer sobreviveu a isso tudo? Já se passaram, sei lá, uns anos desde que tudo começou?
– Sem ofensa, garoto. Todos me perguntam isso mas a resposta geralmente é simples: um cego vê coisas que o restante das pessoas não enxerga – Aposto que ele fez uma cara de dúvida.
– Detalhes cara, me dê os detalhes – disse fazendo uma curva acentuada com a caminhonete.

– Há pelo menos uns cinco zumbis na estrada a frente, certo? – Senti o cheiro deles já fazia alguns metros.
– Sim, na verdade uns seis – Ele disse, dando espaço para que continuasse a falar.
– O cheiro se aproximou quando chegamos perto. A intensidade define mais ou menos uma quantidade e então eu deduzo. Zumbis param somente para comer, eu sempre soube desviar deles nesses momentos.
– Hehe, devem ser americanos, estão devorando uma vaca inteira! Mas e quando os zumbis estão te perseguindo?
– Eu também escuto muito bem, garoto.  Zumbis não calam a boca quando correm atrás de você ou te percebem.
– Admita, você também é um sortudo do… – Levantei os ombros, acho que respondi o suficiente.

Alguns minutos se passaram, já comecei a sentir o cheiro pútrido que a cidade emitia.

– E então, como surgiu a ideia de virar exterminador? Digo, já ouvi umas dezenas de historias sobre você: “O cegueta da fazenda que pode até matar seu pai se você pagar”
– Ei ei ei, primeiro, eu tenho cara de fazendeiro? Meu grupo só está na fazenda, isso não me faz um homem do campo. Segundo, seu pai precisa morrer primeiro.
– Ainda bem que meu velho já se foi faz tempo, muito antes desse inferno.
– Se você olha pra mim, vê um inválido não é mesmo? Mas minha deficiência me deu algo que muitos gostariam de ter: não ver as atrocidades deste novo mundo – Ouvi alguns zumbis se aproximando e logo em seguida se distanciando.

– Eu escutei mães chorando por seus filhos recém-mordidos, eu escutei filhos chorando por suas mães que lhe davam apenas grunhidos e mãos abertas para devora-los, mas eu nunca vi essas cenas. Eu nunca vi uma criança raquítica, morta pela fome, sem forças nem pra morder…Mas não vi nada disso. Me dê um porrete e me mostre pra que lado fica a cabeça do zumbi e eu faço o serviço. Não preciso fechar os olhos pra ser imparcial… – Me considerava a própria Justiça cega.

Eu parecia arrogante.

O motorista ficou calado até chegarmos no destino, que ele descreveu como uma grande mansão cheia de portões e caminhos por dentro dela.
– Quando encontramos o lugar ele já estava saqueado. Tivemos um trabalhão pra reconstruir os portões, mas tá ai, tá bem seguro.

Assenti com a cabeça. Pela quantidade de portões internos era bem possível ter muito tempo pra fugir caso uma horda sentisse a presença de um grupo.

O motorista abriu a porta e ouvi uma voz feminina. Ouvi o som de dois corpos se encontrando. Deve ter sido um abraço.
– Leo! Você chegou e trouxe…ele? – Não peço os nomes de quem me contrata, é mais fácil ser imparcial com o mínimo de identificação com o cliente – Você é o exterminador?
– Sim, sou – Deixo a resposta no ar.
– Mas você é…cego. Como vai ver a… – Ouço o soluço dela. O luto parece pesar nessa casa até mesmo para aqueles que não enxergam. Escuto vários passos na casa, acho que é um grupo grande.
– Sim, sou – Repito a resposta – Fui informado de que o elemento está trancado em um quarto. Me leve até ele e farei o serviço.
– Está bem – Ergo o braço e a mulher me guia por um lance de escadas. – Qual o seu nome?

– Ele é só o Exterminador, Bethy. Ele não fala o nome pra ninguém – Ouço a voz de Leo no meu lado esquerdo. Apenas sorrio concordando.
– Ok. Leo, vá ver o Peter, ele ainda está abalado.
Ouvi os passos de Leo divergindo da direção dos nossos.

– Este é o quarto – Paramos diante da porta.
– Bethy, pode me dizer como é o zumbi? – Tento fazer a pergunta da forma mais sensível possível.
– E-Ela tem uns sete anos. É bem franzina e…e…. – Mais soluços. – Foi tudo tão rápido, era só um passeio lá fora e fomos cercados. Achei que tínhamos escapado com facilidade mas ela…ela foi arranhada por um deles e se transformou quando todos dormiam. Esse era o quarto dela e da mãe e…e… – Estava ficando ofegante.

Tive dificuldade em encontrar seu ombro, mas assim que coloquei a mão direita em seu ombro isso pareceu deixa-la mais calma.

– Faz quanto tempo que ela atacou a mãe? – A última pergunta.
– Foi nessa madrugada. O Peter se recusou a…a terminar com o sofrimento delas e disse que havia alguém no campo que fazia o serviço.
– Ele fez o correto. Com licença, feche a porta atrás de mim assim que eu entrar – Com todo esse tempo a zumbi deveria estar terminando de devorar a mãe. Haveria apenas um zumbi e a carcaça de alguém.

Peguei a minha bengala, feita de aço, e adentrei com ela apontada para frente. Zumbis nunca desviam de você.

Os grunhidos começaram e o som de mastigação mudou para um grito grave. Ela provavelmente se virou assim que a porta se fechou.
Como imaginei, só havia um zumbi. Ela esbarrou na base da bengala e ficou inclinada, tentando forçar o objeto metálico como se fosse uma barreira.

Agradeço aos céus todos os dias por mandar zumbis tão cegos quanto eu.

Num movimento rápido, eu ergui a bengala e fiz o golpe vertical diretamente no crânio da menininha. A cabeça dela se desfez num único golpe, e senti os restos de seu cérebro respingando em mim.
“É sempre um trabalho sujo” pensei e aguardei até ouvir mais algum grunhido. Nenhum, eu estava sozinho no quarto.

– Tá tudo bem aí? – Bethy perguntou. A voz abafada pela porta trancada atrás de mim.
– Sim! Já a derrubei, mas não abra a porta ainda – respondi.

Puxei a mochila das minhas costas e a abri. Procurei e encontrei um rolo de plástico, preto eu acho, e o desenrolei no corpo da menininha. Usei o suficiente para que ela estivesse toda enrolada no plástico preto.
Usei a bengala até encontrar o corpo, ou restos dele, e encontrei o que parecia ser quase um esqueleto completo.

Cobri o corpo da mãe com o plástico também e assim que terminei gritei para Bethy – Tudo certo Bethy! Pode abrir a porta.

Ouvi o som da porta e a voz de Leo – Você conseguiu? Caramba cara, não mentiram sobre você – Ele parecia impressionado.

– Infelizmente não posso cuidar dos corpos eu mesmo. Leve-os até o jardim, faça um funeral se assim o quiser –
Bethy chorava por completo no momento. – Pode me levar até o banheiro? Depois disso, pode me levar para minha casa. O serviço acabou.

Leo concordou e me guiou até o banheiro, abriu a porta e rapidamente me descreveu onde ficava a pia e o vaso. Eles tinham até mesmo água corrente, não sei como. Fechei a porta.
Tirei os óculos escuros e massageei as minhas têmporas. Sentei-me no chão e cobri a boca para chorar.
Devo ter ficado uns dez minutos ali, sentado contra a parede, derramando lágrimas.

“É a décima terceira” pensei. Nunca contei os zumbis que matei, apenas aqueles que eram crianças. Lembrei das minhas filhas, uma vivendo em Boston, nos Estados Unidos, fazendo faculdade e outra no ensino médio. Da mais velha eu não consegui notícias desde o apocalipse e a mais nova…ela faleceu dois dias depois do apocalipse.

Sinto-me mal sempre que devo matar crianças. São o futuro deste mundo e são os alvos mais frágeis. Ninguém tem a coragem de limpar os corpos de crianças.

Levantei-me, lavei o rosto e coloquei os óculos. Abri a porta e sai com a expressão serena que sempre mantinha.
– Aqui o seu pagamento Exterminador. Quer ajuda pra contar as balas? – Leo colocou uma mochila na minha mão.
– Não, confio em vocês. A munição é do calibre acordado, certo?
– Certo. E…obrigado cara. Acho que a gente nunca ia conseguir fazer isso. O Peter finalmente saiu do choque e tá levando as meninas pro enterro. Se quiser ficar até o funeral…
– Não amigo, obrigado. Espero que não tenham que me contratar novamente. Tome cuidado com esses passeios, se esforce para que a sua comunidade não fique entediada dentro daqui. Proteja esse lugar e saiba que apesar de nossas comunidades ficarem afastadas,  podemos ajudar caso necessário.

Não costumo oferecer esse tipo de ajuda. Na maioria dos serviços os contratantes nem falam comigo depois do pagamento. Mas esse caso era diferente, acho que estava com o coração amolecido pela história. Pela tragédia.

Leo dirigiu até a fazenda. Fui recebido calorosamente pela minha namorada. Ela mantinha o gostoso cheiro de lavanda.
– Se enxerga querido, isso são horas de chegar? – Laura mantinha o senso de humor também.
– Precisa aprender umas piadas de ceguinho novas – Respondi e a beijei.

Me despedi de Leo e carreguei a mochila de munição do pagamento no braço direito. Era mais um dia vivo, mais um dia para ser grato.
Mas como eu queria que a cura viesse. Como queria ver as minhas filhas novamente.

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O pessoal do Meia-Lua Pra Frente Soco fez a versão audio desse conto! Confira aqui: Extermina Zumbi S.A

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