Farol


-Conte a história do farol
Ela me disse.

Esta história é tão antiga
Que a lenda perde todos os dados
Nomes, lugares, pessoas
Nada disso importa mais

Um piano.

Um porto deserto.

Um farol.

Ele tocava piano desde os dez anos.
Amava o instrumento
Mas amava sua vizinha ainda mais.

O pianista sabia que era apaixonado
Desde que descobriu o sorriso da garota

“A estrela de minha vida” dizia a si mesmo.

Aprendeu piano para impressiona-la
Esforçada violinista.
Seriam um duo. Ele sonhava em serem um casal musical.

Sete anos tocando juntos e ele nunca se declarou.
Somente numa fatídica noite, se ajoelhou e a pediu em namoro.
Eram tempos antigos. Civilizados talvez.
Ela aceitou o pedido e suas partituras se entrelaçaram com o beijo da meia-noite.

Mas ela teve de partir.
Sua família deixaria o porto e somente poderia voltar anos depois.

O garoto trabalhava no grande farol da cidade e lhe fez uma promessa.
“Lhe indicarei o caminho do meu amor com a luz do farol”
Mas ela respondeu:
“Estarei longe demais para ver a luz”

“Então lhe tocarei minha melodia. E com os dois, saberá que pode olhar para o norte…e me verá aqui, esperando voltar”
Um beijo selou a promessa.

Anos se passaram e os dois amadureceram e envelheceram, mas nunca se esqueceram da promessa:
Se reencontrarem e voltarem a tocar juntos.
Anos se passaram.

Quinze anos e ela estava no barco para voltar.

O garoto, que já era um homem, tocava no piano desafinado no topo do farol.
Mantinha a luz e a melodia acesas e sempre funcionando.
Conforme o tempo passava ele permanecia por mais tempo no farol.
Chegou a dias em que somente dormia, se alimentava e tocava.

A cada ano o piano desafinava mais. A maresia castigava o instrumento.

Quinze anos e ela estava no barco.
Mas uma tempestade tentou destruir sua esperança.
E uma forte neblina destruiu qualquer chance de se guiar para o porto.

Essa história tem duas versões:

A primeira, ela consegue ouvir o som do piano desafinado.
Avisa o capitão do navio e eles conseguem sobreviver e chegar até o porto.
O homem reencontra a mulher e um casamento é feito dois dias depois.

A melodia é feita com notas de felicidade e do choro de lindos filhos.

Na outra versão, ela escuta o som do piano.
Mas o capitão lhe ignora, não aceitando a sugestão dela.
Eles continuam perdidos.
E afundam.

Anos se passam.
Vitalidade passa.
E o homem morre, idoso, com as mãos nas teclas.

Somente na eternidade os dois poderiam tocar juntos.

A melodia é feita de tristeza e das ondas do mar.

Mas não importa qual versão seu humor possa escolher.
A tristeza e beleza do amor não consumado.
Ou da felicidade e simplicidade que é o amor consumado.

Não importa.

Pois em ambas as versões ela escutou a música.
E sorriu.

“Meu amor, meu coração é sua música”
“Sua música é meu coração”

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