O Caso da Tormenta – Dia 1

Peter Caso Tormenta
Dia 0

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Quando os primeiros Supers surgiram, o mundo reagiu de duas formas diferentes:

A primeira, a mais comum, era temer o que isso significava, como funcionava, e como poderia ameaçar a paz e o bem-estar geral do planeta.
A segunda maneira foi a daqueles que queriam lucrar e se aproveitar da situação.

Após anos, lidamos bem com a primeira reação  mas ainda temos de enfrentar a segunda.

Bati na porta três vezes enquanto reassumia a visibilidade. Ele já sabia que eu estava aqui, o motivo, e já tinha as respostas pra mim metros antes de eu alcançar o beco que dava acesso a seu apartamento. Mas manter as aparências é importante no Subúrbio.

Um senhor idoso, já careca, abriu a porta.
“Olá Telepata, como vai?”
“Já sei o que quer garoto, apenas siga o protocolo” nos comunicamos mentalmente.

– Olá senhor Nakashima, sou da polícia. Vim verificar a situação do seu visto.
– Ah! Vocês da Deportação de novo, não vão conseguir me mandar embora de novo – respondeu o velho resmungão.

Adentrei no pequeno apartamento e tomei uma cadeira de madeira para me sentar. O Telepata se sentou em sua poltrona.

– Vejo que sua situação melhorou desde a última visita – digo, enquanto faço a pergunta mental: “Tem os nomes?”
– Ha, vocês adoram comentar isso. É pra me deixar menos triste ao me deportar? – respondeu enquanto dizia “São dois. Nikolas e Natasha. Ex-criminosos estrangeiros, vieram ilegalmente”
– Me dê seus documentos, vamos verificar se está tudo ok – nós dois apenas falávamos, continuávamos parados sentados. “Acha que um deles pode ter feito o serviço por dinheiro?”
“Só se forem muito idiotas. Tome os endereços” respondeu me enviando imagens mentais de sua casa. Ficaria quase o dia inteiro no encalço dos dois.

– Muito bem, parece tudo certo senhor Nakashima. Vejo você daqui há um mês – disse me levantando e indo para a saída.
– Ah, podiam ser dois.

“Obrigado tio. Bem, acho que essa podia ser a última visita mesmo. Já passou da época de deixar de trabalhar como informante, papai já disse que te receberia na casa dele em Londres” fiz a proposta mais uma vez.
“E como você se viraria sem mim, moleque? Vai garoto, não me enche”

Assumi a invisibilidade novamente. Nem a maioria dos Supers poderia me ver nesse bairro cheio de vigilantes não registrados, oportunistas, até mesmo vilões…todos tinham algo em comum: viviam a margem da sociedade enquanto seus poderes lhes separavam da humanidade.

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Quando contei sobre meus poderes, todos tiveram uma mesma preocupação:

– Você estava lá, invisível, quando… – todos temiam por sua privacidade. Segredos que temiam ter sido revelados, coisas que queriam esconder, ou simplesmente achavam que minha curiosidade seria maior que a minha decência. Não pude frequentar clubes ou banheiros públicos por muito tempo, até que todos percebessem que eu não era um tarado ou algo do tipo.

Decidi desde o dia um da descoberta dos meus poderes  a nunca usa-los para motivos mesquinhos. Até entrar pra divisão de Supers da polícia raramente usava meus poderes.

Assim como Telepata havia me contado, Katarina e Nikolas moravam num casebre bem no centro do subúrbio. Era quase uma favela, habitada por Supers que não queriam se registrar.
Entrei pela janela aberta. Vi uma mulher ruiva na cozinha, cortando cenouras ou algo do tipo. Esperei ela terminar o primeiro legume para falar.

– Katarina, sou Peter da divisão Supers da polícia…

Ela gritou algo em russo, por conta do susto, e fez a faca levitar apontada para mim.

– Polícia? Mas não fiz nada! O que querem aqui? – ela conseguiu falar, com um sotaque carregado.
– Ajudar. Estou investigando um crime e preciso saber quem é você e seu…
Katarina gritou novamente, dessa vez para o homem que apontava diversos objetos de metal que flutuavam no ar.

Fiquei invisível instantes antes dele atirar os objetos em mim.

– Não vim lhes fazer mal, mas preciso… – um panela explodiu logo acima de mim – …coletar algumas informações.

O homem gritava em russo. Era Nikolas, o marido dela.

Fiquei irritado em ser ignorado, então segurei um pedaço de madeira que ele mesmo lançou com seus poderes.
– Consegue segurar o que não vê? – tornei o objeto invisível e rapidamente apliquei um golpe em sua testa. Nikolas desmaiou.

Uma hora depois, Nikolas acordava no sofá. Katarina voltava com xícaras de café solúvel. Horrível no sabor, mas ela se esforçou, disso tenho certeza.

– Agora que estamos todos bem mais tranquilos. Quero fazer algumas perguntas, vocês vão responde-las?
– Senão o que? Vai nos deportar não é? Pra que te responder? – Nikolas acordou já gritando.
– Não vou deporta-los se colaborarem comigo. Sou um amigo, um de vocês – me aproximar da testemunha para que ela fale naturalmente. Não costumava ser o “Policial Mau” – Onde vocês estavam na madrugada de ontem?
– No bar do Crânio – Katarina prontamente respondeu.

O bar do Crânio era o bar favorito dos Supers não registrados. Um local sujo e escuro, mas a clientela e o dono sabiam manter segredos. É o tipo de lugar que vigilantes frequentariam, mas não um assassino.
O Canto Escuro que era um bar de vilões e assassinos. Impacto estava lá tentando achar Balthier.

Fiz algumas outras perguntas, eles pareceram verdadeiros imigrantes em busca de uma vida melhor com seus poderes. Até mesmo me contaram uma história triste de como foram usados pelo governo russo.
Muitos exageros é claro, mas não desacredito. O meu país é o único com um estatuto para pessoas com poderes.

– Senhores, sinto lhes dizer que há somente duas opções para vocês neste momento. Existe a suspeita de que um telecinético tenha assassinado uma super-heroína conhecida como Capitã Tormenta, e se a análise do corpo confirmar isso, os senhores se tornam suspeitos primários. São os únicos telecinéticos na cidade nas últimas quarenta e oito horas.

Os dois arregalaram os olhos.

– Ou vocês se registram, entrando no programa do governo, se tornando cidadãos e não sendo deportados. Acredito na inocência de vocês, então fica mais fácil de garantir sua inocência se colaborarem.
– Qual é a outra opção? – Katarina perguntou.
– Ficarem onde estão, e rezar para que Tormenta não tenha sido assassinada por um telecinético. Caso seja, serão julgados e não importa o veredito, serão deportados.

Não dei muitas escolhas aos dois. O Homem Invisível podia ser alguém duro também.

– Vocês tem até amanhã para darem entrada no registro na delegacia de Supers. Fiquem com meu número, me liguem se necessário – dei meu cartão e deixei os dois conversando em russo.

Assumi invisibilidade e quando já estava na rua, recebi a ligação do chefe.
– Diga, chefe – esperava boas notícias.
– Achou quem procurava? – direto ao ponto.
– Sim, mas não acredito que tenham sido nenhum dos dois. O Impacto conseguiu pegar o Balthier?
– Haha, sim – parei de andar quando escutei. Impacto já havia lutado com o teleportador, em seus tempos de heroi, e havia perdido – Ele acabou de trazer o maldito aqui. Charque chega daqui a pouco.
– Ok, mais alguma coisa?
– Sim, venha pra cá. Visão quer falar com você, ela analisou o corpo – Visão era a médica forense da nossa divisão, ela é responsável pelas biópsias.

Respirei fundo e desliguei. Eram quatro horas da tarde e eu mal havia começado o caso direito.

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– Oi Peter, veio rápido dessa vez – Visão me cumprimentou quando entrei no necrotério, já visível.
– Olá Amanda  – Tirei o chapéu e o coloquei sobre uma mesa.

Amanda tinha sido uma heroína registrada, trabalhando por anos nessa função e decidiu se aposentar depois do mesmo caso que colocou Impacto aqui. Era uma asiática bonita, madura, cheguei a flertar com ela. Sem sucesso, é claro, Visão era muito séria no que fazia.

– O Chefe disse que tinha algo pra me perguntar. Essa é a Lara? – perguntei, olhando para o corpo coberto em cima da mesa.
– Sim, observe – ela descobriu a heroína e apontou para o pescoço – pelas marcas, esganamento, foi feito por mãos. Não-telecinético.
– Como o maldito conseguiu atravessar os poderes dela e alcançar o pescoço? – perguntei, em dúvida.

– Pesquisei como os poderes dela funcionam, puxei o arquivo nos registros. Ela tem uma fraqueza – Amanda tirou os óculos e usou seu poder. Uma projeção, semelhante a raio-x, se formou no peito de Lara – Vê essas fraturas no peito? Costelas quebradas, caixa toráxica afundada. Os poderes dela funcionam em uma área próxima dela, ao seu redor, mas fora dela alguém pode ter atacado.
– Então houve combate.
– Sim, mas de alguma maneira não conseguimos enxergar isso do lado de fora. Tenho uma teoria: eles lutaram, mas o momento da morte veio depois do combate. De alguma forma os ferimentos mais aparentes foram curados, e ela foi esganada depois.

“O maldito queria acobertar algo? Mas descobrimos mesmo assim…ele quer ganhar tempo?”

Pensei por alguns minutos, mas a cabeça já estava pesada. Não dormira desde ontem a noite.

– Peter, você está pescando. Suba e durma um pouco, vou fazer mais exames, talvez descobrir o que ele usou para acobertar os ferimentos.

Tentei insistir, mas ela me conhecia e tinha razão.

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Morava num apartamento bem próximo da delegacia. Aluguel barato e vizinhança silenciosa.
Dormi algumas poucas horas, foi o celular quem me acordou.

– Peter! Pelo amor de Deus, que bom que atendeu!
– Bailey? O que… houve? – acordei grogue.
– Vem pra cá, logo, tem um corpo novo. É…é…vem logo!

Ela estava desesperada. Corri para o endereço que ela me indicou. Era bem embaixo de um viaduto, um canto escuro na cidade grande.
Nem me dei ao trabalho de ficar invisível para correr até lá.

“Mais um? Meu Deus, outro heroi morto? Pra Bailey me ligar…”

Virei a esquina, vi os carros da polícia montando um perímetro, os policiais mantendo os curiosos longe e uma Bailey correndo até mim.
– Peter, antes que você entre…
– Calma aí, deixa eu ver quem é.
– Não, espere – não pretendia aguardar. Quem seria? Mage? Mestre? SuperDinamo? Aríete?
– É minha divisão Bailey, eu tenho de…

Fiquei sem palavras.

Na parede, uma trilha de sangue que ia de baixo para cima. O sangue escorria, e o que restara da cabeça da vítima estava espalhado no chão e na parede.
Mesmo que não reconhecesse o rosto que já não existia mais, eu reconhecia o uniforme de heroi, agora não mais por baixo das roupas de detetive.

– JONAH!!!!!!! – esbravejei, correndo até meu amigo. O que sobrara do meu amigo.

As manchetes do dia seguinte eram ainda mais sombrias:

“Na noite de ontem foi encontrado o corpo de mais um heroi registrado. A polícia não confirma se houve homicídio ou se esse caso está relacionado a morte de Capitã Tormenta. Entretanto, o corpo do antigo heroi, Impacto, foi levado a delegacia de Supers para investigação da morte…”

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