O Martelo

Capítulo 1 –  Forja dos Tempos
Capítulo 2 – Reforjado

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A chuva artificial cobria Nova Parnasis. Uma discreta nave de passeio percorreu a noite chuvosa e aterrissou no teto de um prédio abandonado.
As portas da nave se abriram e o piloto é recepcionado por um homem de capuz.

– Marcus! Não acredito, você tá vivo! – Jona, um policial de elite, saltou da nave e abraçou um Marcus cauteloso.
– Sim, estou – respondeu secamente.
– C-Como cara? O que era…aquilo? – Jona se lembrava muito bem da noite que viu Marcus banhado em chamas e coberto por uma carapaça. Uma armadura rubra.

– Longa história. Mas preciso da sua ajuda. Pode guardar segredo? – Marcus perguntou, olhando de soslaio para a nave do policial.

“Estaria mais alguém ali?”

– Pode falar cara. Melhor não ser aqui, vamos dar uma volta – Jona tomou o assento do piloto e aguardou Marcus subir.


O ex-policial subiu a contragosto. Minutos de silêncio constrangedor.

– É um cinto. Ele está…preso no meu corpo. Quando eu preciso lutar, o ativo e viro “aquilo” – Marcus disse se referindo a armadura. O Forja.

– Acha que eles te querem pelo cinto?
– Não. Agora eu sei mais sobre a verdadeira Parnasis, a velha cidade. É onde jogam os exilados. Os que sobrevivem ficam em cavernas e…minha mulher, a minha filha, elas vivem lá.
– O QUE!? Elas estão vivas? – Jona sorriu, mas não por muito tempo pois a expressão de Marcus não era de felicidade.
– A situação deles. Não posso ficar parado ou escondido. Preciso de ajuda, e eu preciso de suprimentos.

Jona pressionou os dedos no volante. Sabia que pedido viria a seguir.

– Sabe que eles vão me usar pra tentar te achar. Pra tentar te prender. Porque fui seu parceiro, seu amigo. Não posso te dar nada além de um dia e horário mais fáceis pra roubar, sei lá, um mercado.

– É suficiente. Pode me deixar aqui – Marcus se ergueu dentro da nave e quase não aguardou a porta se abrir no teto de um prédio comercial.

– Boa sorte Marcus!

Marcus sorriu e desceu.

Jona pressionou o botão de comunicação após alguns minutos, ainda dirigindo:
– Confirmado, senhor. Ele ainda confia em mim.

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Marcus verificou o mapa novamente na tela de seu bracelete.
“Sete cliques daqui. Posso fazer isso sem a transformação ainda. Não posso ficar dependendo dela…”

Sentiu os braços tremerem, mas ignorou o medo e olhou para frente. Precisava atravessar a distância a tempo.
Saltou a grande distância do prédio onde estava para o edifício seguinte com facilidade.
Ofegante, correu para o segundo salto. E o terceiro.

“Ali. O Mercado Geral” aterrissou com menos suavidade no último salto.
Olhou ao redor e o prédio parecia ter a segurança padrão: sentinelas robóticas esparsas, alguns seguranças humanos em trajes especiais negros.

“Poderia esperar que Jona me mandasse as informações, mas a situação lá embaixo é mais urgente…vamos, respire”

O calor proveniente do cinto era natural e aos poucos Marcus compreendia cada vez mais como invocar o poder do Forja.

Grunhiu quando sentiu o cinto emergir de seu corpo e surgir sobre sua cintura.
Ergueu o braço direito e o manteve no ar, pensando pela última vez, se seria correto usar o legado de Victor.

Pressionou o botão e urrou quando sentiu as chamas percorrem seu corpo, se transformando na couraça que era a armadura.
Forja abriu os olhos, representados por dois pontos vermelho-sangue no capacete, e encarou o prédio a sua frente.

O primeiro robô sentinela não conseguiu processar o que lhe derrubou de seu ponto afixado no parapeito. O segundo robô girou o tronco e fez a mira, mas Forja se moveu rápido demais e sua cotovelada atirou o sentinela metros longe, para encontrar o fim no chão escuro e esquecido de Nova Parnasis.

Dois guardas, devidamente trajados de preto e capacete de segurança, gritaram as palavras do protocolo e dispararam com suas pistolas.

Se Forja possuísse boca, teria sorrido diante das balas que inutilmente se espatifavam na couraça. Ele correu e atingiu o guarda da esquerda com um chute, emendando um giro e uma cotovelada na altura do pescoço do guarda da direita.
Marcus enxergava tudo se mover em câmera lenta, mas Forja fazia aqueles movimentos como se nunca tivesse feito outra coisa.

O impacto lançou os dois guardas pelo vidro do teto, abrindo a entrada para os andares do shopping, entrecortados por um grande vão que atravessava o prédio inteiro.
Forja saltou, causando tremor no chão do último andar antes do teto.

– Ele foi por ali! ALI! – mais guardas disparando inutilmente. Os consumidores corriam desesperados para escapar do mais novo declarado terrorista.
Forja olhou para frente, ignorando os disparos que explodiam em sua carapaça, e localizou a loja que queria: Um supermercado.

Os guardas desistiram da aproximação a distância, então sacaram do pequeno bastão que cada um carregava num coldre no cinto, e o ativaram: o bastão se estendeu, ficando tão alto quanto o guarda e com a ponta eletrificada.
A velocidade de Forja era absurda demais para que qualquer bastão pudesse atingir o homem de armadura.
– Lento – grunhiu enquanto aplicava um soco que afundou o capacete no rosto do primeiro guarda. O chute em seguida arrancou o capacete e a cabeça do guarda seguinte.

Diante da cena de decapitação à mãos nuas, o restante recuou e fugiu pela escada, esbravejando no rádio por suporte.

Forja se virou para a loja novamente, mas esta já havia terminado de se trancar baixando uma grande placa de titânio como bloqueio.
O homem de armadura tentou socar a placa, e apesar do impacto sônico que quebrou diversos vidros no shopping, a placa susteve o dano.

Marcus sentiu que Forja fechou os olhos, se concentrando numa memória.

Uma arma.

Forja pressionou o botão do cinto e murmurou algo numa língua que Marcus não compreendia. No segundo seguinte, Marcus sentiu o braço direito de Forja fumegar no momento em que um martelo pequeno se materializou.

O Martelo da Forja.

Forja ergueu a arma e a lançou contra a placa de titânio. Ela se espatifou em diversos pedaços, feito vidro.
O martelo não parou na placa de titânio, expandido chamas e uma porção de energia vermelha, parecida com elétrica. Destruir a parede do mercado que dava acesso ao lado de fora do shopping.

Uma nave cargueiro, devidamente escondida até aquele momento, surgiu e abriu sua escotilha:
– Simbora Marcus! Pega tudo e joga aqui! – Nikolai esbravejou, de dentro da nave.

Forja fez o trabalho de muitos homens em poucos minutos. Assim que jogou a última caixa de alimentos para Nikolai, uma porção de guardas munidos de metralhadoras adentraram na loja.

“Não Forja. Amanhã você luta. Agora você foge!” Marcus conseguiu avisar seu alterego. Ele e a nave do cargueiro sumiram na imensidão de Nova Parnasis.

Forja mergulhou na escuridão do térreo da cidade. Mas sua chama não poderia ser apagada ali.

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