O Caso da Tormenta – Dia 2

Peter Invisível
Dia 0
Dia 1

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Quando revelei ao departamento de polícia que seu mais novo recruta era outro dessa grande novidade que eram os Supers, haviam poucos eu poderia chamar de bons colegas.
A primeira reação natural é de temer o que é diferente, em seguida hostilizar.

Mas um dia vieram os Direitos dos Supers e as coisas finalmente mudaram pra melhor. Entre elas um novo sistema que registraria Supers e formaria equipes para que eles pudessem agir como herois. Desde o Evento que originou os poderes muitos já assumiam um manto de super-heroi, então esse sistema apenas oficializou muitos deles. A Liga seria a equipe mais famosa e antiga.

Jonah era o mais novo dessa primeira geração de herois. O mais novo agora tinha morrido numa rua deserta de uma noite qualquer.

Aquilo me revoltava.

– Peter! PETER! – o Chefe gritava enquanto erguia meu punho direito. Eu estava descontrolado, segurando Balthier pelo colarinho com a mão esquerda. Provavelmente já teria deslocado a mandíbula do teleportador se ele fosse um humano comum.
– Vai contar agora como matou essas pessoas, Balthier? – eu esbravejava.

Balthier possuía olhos felinos e orelhas pontudas. Olhar para ele era um pequeno exercício de coragem, pois a expressão inumana exibia perfeitamente sua personalidade doentia.

– Peter, se não largar ele agora eu mesmo te prendo! – foi a última ameaça do Chefe. Larguei Balthier e sai da sala de interrogatório. O teleportador sorria mesmo estando preso na cadeira e algemado com o composto químico que anulava seus poderes.

Ouvi o Chefe gritar diversas ordens para muitos dos funcionários do escritório. Qualquer um poderia falar diversas coisas ruins sobre o Chefe, mas ele era expert em uma coisa: manter o caos fora desse escritório.
Ele convocou todos os envolvidos no caso em sua sala.

– Estamos perdendo tempo. Balthier tem um cúmplice, é óbvio que foi ele! – eu disse, a raiva nublando meu raciocínio – Temos de interroga-lo.
– Com prazer – Charque estalou os dedos do punho direito. Ele mesmo já havia aplicado um pouco de seu peculiar interrogatório agressivo.

Charque também estava levando pro pessoal. Um brutamontes de dois metros, Richard era um dos mais antigos no escritório e vindo na mesma época que Jonah (e envolvido no mesmo evento que tirou Impacto do mundo dos super-herois).

– Surrando o pequeno demônio até a morte? – o Chefe respondeu – O capeta esta é curtindo o tratamento VIP. Vão começar a pensar e me ajudar ou vou ter de prender vocês dois?

Visão havia se sentado num canto da sala, afastada do grupo adiante da escrivaninha do Chefe.

Reclusa, mas eu sempre acreditei que isso lhe dava um ponto de vista muito mais amplo que nós.
– Chefe, acabei de terminar minha análise do corpo da Capitã Tormenta – ela disse, ajeitando os óculos.
– E então? – perguntei.
– Não pode ter sido Balthier. A análise de DNA ainda vai sair, mas o estilo de combate usado nos ferimentos iniciais são completamente diferentes do modo do teleportador. Ele luta com duas facas, e geralmente atinge jugular e estômago. Os ferimentos iniciais, aqueles que haviam sido escondidos, são de impacto e não corte.
– Então ele tem um cúmplice! – Charque estalou os punhos mais uma vez.
– Ou a droga de um clone – Chefe olhava para as fotos do corpo caído de Jonah. Suposições assim podem ser piadas na polícia convencional, mas por aqui tudo é válido – Porque o maldito foi visto enchendo a cara no Canto Escuro.

O assassino era alguém que não somente conhecia como passar pelos poderes da Capitã, mas também sabia da fraqueza de Impacto: próximo de atingir o solo, após atingir certa velocidade, ele perdia a invulnerabilidade. Era a única forma de ter esmagado sua cabeça.
Pelo ângulo e altura da grande mancha de sangue naquela parede…o assassino o atingiu no ar.

Os telecinéticos de ontem já haviam se registrado e estavam sob entrevista no momento da morte do Impacto. Estavam fora da lista de suspeitos por enquanto.

Passamos um longo tempo discutindo evidências, analisando detalhes, mas não haviam testemunhas na hora…pressentia que chegaríamos num beco de saída.

O telefone tocou e o Chefe atendeu. Após alguns grunhidos ele parecia ter um plano de ação pra mim e pro resto da equipe. Ele me deu ordens primeiro:
– Peter, vá ao Canto Escuro. Consiga informações de como Balthier saiu da prisão, mesmo que ele não tenha matado ninguém, ele serviu de distração para que acontecesse isso com Impacto.

Assenti e abri a porta do escritório. Queria sair daquele lugar, queria agir.

Parei de andar no instante que vi Bailey na minha frente, ajeitando o relógio de pulso.

– O-O que faz aqui? – perguntei, quase ficando invisível por conta do nervosismo.
– Seu chefe me chamou – ela respondeu no mesmo tom de surpresa.
– Ah, esqueci de falar. Agora que tem um assassino de supers por aí, ninguém anda desacompanhado. Chamei ela porque já trabalharam juntos – o Chefe gritou de sua mesa.
– Mas chefe, o que… – não consegui terminar a frase.
– Que se dane o que acha. Estou mandando – terminou fechando a porta com força.

– Ok Bailey. Vamos…vamos logo com isso – eu disse, me dirigindo a saída. Ela me acompanhou.
– Sabe que eu odeio ter de sair da minha rotina pra lidar com essas maluquices né? Mas nesse caso, não quero…ah, vamos logo. Já que não vai andar invisível por aí, vamos no meu carro.
– Eu ando mais rápido sem carro – disse, ainda descontente por não me esconder no meu poder.
– Que eu saiba seu poder é ser invisível, Peter – ela respondeu com um risinho – Vamos pro Canto Escuro. Não deveríamos, sei lá, olhar as anotações do Impacto?
– Quem o matou fez questão de sumir com a caderneta dele – a cidade passava pela janela do carro compacto. Tirei o chapéu, e mantive-me cabisbaixo – Vai acontecer mais vezes…
– As mortes? Pegamos o cara e fica tudo…
– Bailey! Isso aqui não é mais um caso idiota de homicídio, é extermínio. Pessoas como eu…
– Pessoas como você, excelente. E já que eu não ando pelas paredes ou solto raios pelas minhas tranças eu não posso compreender como você se sente, idiota? – ela pressionou as mãos no volante – Não precisa agir como um adolescente Peter. Vamos resolver o caso e deixar a vida dos Supers de volta ao normal.

Bailey é durona, isso não posso negar.

Canto Escuro. Um bar localizado no centro da periferia da cidade, no ponto menos iluminado pelo sol. Covil de Supers criminosos e vilões.
Impacto costumava deixar sempre algo destruído quando saia daqui, e realmente, uma parede tinha o buraco do tamanho de uma pessoa.
Não era a minha primeira vez ali, mas era a de Bailey.

Rock oitentista tocava dentro do bar. Era cedo então não haviam muitos clientes ainda. Me sentei ao lado de um conhecido: o metamorfo Roy.

– Roy, como vai a vida de rato? – perguntei, colocando um dólar na mesa. O garçom me conhecia, e me deu uma xícara grande de café.

Meus poderes reagem muito mal ao álcool. É horripilante para os outros quando eles podem ver somente as suas veias.

– Cheirando a queijo, Invisível. É diferente te ver chegando em plena vista, então vai ser direto ao ponto hoje? – o rato humanoide verteu o que restava de sua cerveja.
– Sim. Quero que me conte o que viu ontem, quando Impacto apareceu.
– Ele lançou Balthier através da parede. Eu vi tudo, policial, mas por que contaria? Eu to limpo…
– Claro, e nem por isso eu contaria ao governo que seu vício por heroína não parou até ontem. Violando sua condicional…
– Ok, ok. Menos ameaça, eu falo.

Roy estava do lado de Balthier quando Impacto chegou. De acordo com o metamorfo, o teleportador não parecia preocupado. Ele provavelmente esperava que o procurássemos, por que não fugiu?

Impacto tentou tirar respostas dele, mas Balthier permanecia sorrindo e bebendo sua cerveja. Após alguns minutos, Impacto deu ordem de prisão e lançou o teleportador pela parede.
Não é o tipo de abordagem que Jonah costumava fazer, mas Balthier parecia despertar a fúria de qualquer um de nós.

Quem sabe era até sua habilidade especial.

Notei que Bailey atraia olhares desconfiados de todos ali. Além de ser uma Não-Super ela era uma policial, e mesmo não vestindo o uniforme da polícia ela possuía a postura de oficial da justiça.
– Quem é a sua amiga? – Roy perguntou enquanto eu bebericava o café – Ela parece policial.
– Não sabia que no Canto Escuro começavam a perguntar quem era a clientela. Vou poder vir aqui e perguntar os nomes de todo mundo?
– Você está um saco hoje, Invisível. Que bicho te mordeu?
– Hoje, nenhum – continuei tomando o café – O Balthier tava falante?
– Mais ou menos. Ele parecia doidão, meio grogue saca? Sorrindo pras paredes
– Ele comentou sobre a fuga da prisão? – o café era muito amargo. Ninguém ali estava acostumado a servir café.
– Sim, bem por cima ele comentou que ele e um amigo abriram a cela juntos. O amigo morreu na prisão e ele escapou.

“Amigo?” o relatório sobre a fuga da prisão não falava nada sobre um cúmplice.

Agradeci ao Roy e acenei para Bailey.

– Conseguiu as informações que queria? O Jonah veio aqui? – Ela perguntou quando estávamos fora do bar.
– Sim, ele veio e aconteceu tudo justamente como ele tinha dito ao Chefe. Nada novo… – respirei fundo – Mas parece que Balthier tinha um cúmplice que morreu na fuga da prisão.
– Ok…mas e agora?
– Reportamos ao Chefe e vemos o que os outros do departamento conseguiram.

A volta foi silenciosa. Eu estava repassando os detalhes do caso na minha mente mas me atentei a dois detalhes: Balthier estava envolvido de alguma forma as duas mortes, e a outra é de que o assassino seria alguém que conhece muito bem esses herois assassinados.

Assim que entramos na sala do Chefe contamos tudo o que descobrimos. O telefone dele tocou:
– Hã? Quem tá ai? Tá, deixe eles entrar. Não, não na minha sala – deduzi quem teria chegado. Pela expressão do Chefe – São os caras da Liga, seus bravos herois juramentados.

O escritório parou quando os quatro entraram: Aríete, a loira de exo-suit branca, me reconheceu.
– Peter, bom te ver – parecia feliz em me ver dessa vez. No último encontro ela derrubou cinco paredes.
– Oi Marah – respondi, cruzando os braços.

Bailey se dirigiu ao banheiro feminino.

Mage e Superdínamo pareciam incomodados estando ali, de braços cruzados e olhando para todos os lados, menos para mim.
Mestre, o líder da Liga, tomou a dianteira do grupo:
– Olá senhores, sinto em interromper seu trabalho e investigação. Mas acredito que podemos ser úteis nesse caso…

Enquanto Mestre falava, Superdínamo se aproximou de mim envolto em sua aura alaranjada nuclear. Nós dois tínhamos um grande histórico de inimizade.
– Onde fica o armário do Jonah? – disse secamente.
– Eu te mostro – o levei até o vestiário. Não sabia o que ele ia querer com as coisas do Jonah e já tínhamos olhado o armário, mas sei que o Jonah era tão próximo dele que havia sido padrinho de casamento do Super. Talvez houvesse algum item pessoal que ele conhecesse…

O armário estava sem o cadeado. Eu estava olhando para a janela quando Super começou a gritar.

Eu não gostava do Frank mas ele não merecia isso.

Quando me virei o vi coberto por um líquido negro. A face dele começou a derreter junto do restante do corpo, se tornando num poça alaranjada no chão do vestiário masculino.
O cheiro era cítrico.

– Frank! Ei! Ajuda aqui! FRANK! – Esbravejei, mas era tarde.

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