Ponto nulo

EUA, 1911

N havia finalmente achado uma época e um lugar para se estabelecer e finalmente ter sua aposentadoria. Agora morava no território de New Austin e se chamava Nathaniel. Era um bem sucedido dono de Saloon.
– Os tempos são novos Nathaniel, já ouviu falar das novas máquinas? Os carros?” o velho Will era um dos mais assíduos frequentadores de seu estabelecimento e já estava em seu terceiro copo de uísque.
“Sim, já ouvi falar e você não sabe como elas vão mudar o mundo” pensou N mas apenas se limitou a responder: -Já, aquelas bacias de ferro? Eu consigo andar mais rápido que aquilo.
Will cuspiu para o lado e pegou seu palito de dente.
Duas figuras diferentes entraram no salão. Usavam chapéus comuns de cowboy e o mais alto usava um poncho verde. O mais baixo parecia usar a mesma roupa a anos. A música não parou e ninguém os notou, mas N sabia que homens armados e estranhos podiam significar duas coisas diferentes: Foras-da-lei ou o Governo. “Sempre iguais” pensou.
O mais alto dos dois pediu uma dose de uísque para cada. N os serviu com tranquilidade.

– Geralmente não vem ninguém de fora pra nossa cidade. O que cês fazem? – Will perguntou.
O mais baixo era carrancudo e N quase se viu segurando o homem para que não machucasse o velho Will. Não foi necessário. O mais alto apenas respondeu:
– Só de passagem.
– E procurando alguém – o mais baixo disse como se tivesse deixado escapar as palavras. O mais alto o encarou.
– Quem? – perguntou Will.
– Will idiota – N apenas olhava para a garrafa e o copo que servia.
– Um tal de Johansson. Dizem que é o médico por aqui – o mais alto respondeu com um tom de voz brando.”Brando demais, parecia que queria realmente ter dito isso desde o inicio” N pensou.
– Há! Ele anda sempre por aqui, deve tá numa das casa – o velho Will cuspiu novamente.
N sabia o que viria a seguir. Tão previsível, agora vem a distração
– Sabe onde ele fica quando vem aqui? – perguntou o mais baixo encarando N.
– Talvez. Mas de graça? – N sabia que não deveria aparentar ter mais do que 25 anos e aquele bigode e barbicha escondiam bem sua antiga identidade. Mas a experiência havia forjado sua suspeita.
– Tá pensando que é quem, escória? – o carrancudo sacou sua pistola e apontou a arma para N. O piano parou de tocar e todos congelaram em suas danças, partidas de poker e dados.
Isso, o deixe nervoso” N pensou, sentindo-se queimar por dentro, mas sua face era fria como pedra.
– Mark, abaixe a arma – o mais alto segurou o braço direito do colega.
– Abaixe a arma filho – N disse, ainda tranquilo. Não deve ter mais que 18. Como podem mandam novatos atrás de mim?”
Mark baixou a arma encarando o colega – Não me diz o que fazer Peter.
Peter sorriu para N e pediu desculpas pelo comportamento do colega. N concordou sorrindo.
– Devem ter tido uma viagem estressante – “Mas a morte vai ser mais ainda”Tudo no Saloon voltou ao normal e as pessoas continuaram em suas rotinas.
– Sim, meu caro. Quinze dólares já está bom? – Peter colocou o dinheiro no balcão. “Dinheiro de pão”.
– Serve sim. Vamos, me sigam. Will, não roube a minha bebida se não quer perder outro dente – pegou sua bengala e saiu de trás do balcão mancando.
“Minha aposentadoria” se lembrou como havia se tornado manco. O primeiro confronto não tinha sido agradável.
A cidade era pequena e possuía somente uma rua de terra e uma dúzia de casas e estabelecimentos a direita e a esquerda. “Faroeste completo”
N os guiou até um beco e fez menção de bater em uma porta…Mark segurou seu braço direito com firmeza.
– Temos ele agora – disse Mark olhando para o nada com a mão sobre o ouvido direito, enquanto segurava N. Peter se aproximava com a arma em punho – Como assim se ele está amarrado? É um coxo qual… – a voz de Mark foi interrompida pelo soco rápido de N com a mão esquerda. Peter era o alvo.
Peter cambaleou para trás enquanto N se libertava com uma cotovelada no estômago de Mark. Rodopiou e ergueu a bengala, apertou no ponto certo e liberou a lâmina. “Caneblade do melhor aço, perfeito pra matar Interventores”
dessa vez não precisava mais esconder que sabia quem os dois eram.
Mark não teve tempo de sacar seu revólver antes da lâmina cortar seu braço e em seguida perfurar seu peito. Morreu de olhos bem abertos. “Deve ser estranho para um novato, que se acha a morte encarnada, ser morto por um estranho”

Peter ergueu sua pistola e apontou, mas a velocidade de N era tamanha que não conseguiu pensar em puxar o gatilho. Ele atingiu a arma com a espada e com a parte oca da bengala atingiu seu joelho esquerdo, quebrando ossos.
– Sabe o que me incomoda Peter? – N empurrou o alto homem para o chão – Eles me mandam sempre os mais verdes, os mais dispensáveis, parece até que querem matar mais dos seus e não me eliminar – pressionou a bengala na garganta do assassino.
– Eu escapei do seu sistema, colega, mas te digo que sou o único que pode faze-lo. Então avise ao seu chefe e ao escritor que N não está disponível para assassinar ou ser assassinado.
Peter fechou os olhos e sumiu assim como o corpo de Mark.
Velho Will estava discutindo com um cliente qualquer do Saloon e gritou quando viu Nathaniel se aproximando.
– Ei Nathaniel! Aposto que eles eram do governo hein.
– Não sei se eram, só sei que foram embora quando não encontramos o médico – voltou para o balcão e serviu mais um cliente.
Já havia sido N de Nathan, N de Nolan, N de Neo e N de Noah. Agora era N de Nathaniel e preferia se manter assim

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