O Caso da Tormenta – Tarde Final

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O Chefe contou apenas uma vez sobre como acabou responsável pela nossa equipe de investigação.
Poucos conheceram Amanda, a filha de Smith. Ela ganhou os poderes na primeira geração de Supers: a Valquíria.

Antes da criação das leis em favor dos Supers, antes da população se acostumar aos herois, ela foi uma das primeiras a pegar uma máscara e sair pelas ruas combatendo o crime.
A mídia lhe tornara um monstro, um ser desconhecido que voava na calada da noite e deixava inúmeros assaltantes inconscientes no chão, danos em prédios e já ganhara uma reputação enorme entre a comunidade Super.

Somente a comunidade Super sabia quem era Amanda, o que ela defendia. Smith, o Chefe, era chefe de polícia e desaprovava a vida dupla da filha.
“Eu não falava com ela fazia muito tempo” lembro do Chefe dizer.
Foi somente quando Valquíria morreu que o mundo enxergou os Supers pela primeira vez.

Um assassinato brutal: forjaram um pedido de socorro num beco e cercaram ela. As marcas de bala de chumbo devem estar ali até hoje.
Alguém havia descobrido a fraqueza dos poderes dela.

Smith ficou desolado. O país inteiro ficou comovido diante de sua entrevista para o jornal das oito…as coisas começaram a mudar.
Eventualmente a equipe de investigação dos Supers foi criada e os responsáveis pelo assassinato foram presos. O Chefe está aqui desde o dia um.
E com certeza era o caso mais complicado desde então.

As provas apontavam para alguém totalmente inserido na comunidade Super. O Chefe havia acionado pessoal de reserva do nosso escritório: um deles foi até o ex-namorado da Capitã Tormenta, o outro, foi buscar um informante.
Mas nós da delegacia, estávamos diante do corpo de mais um heroi registrado: o terceiro em três dias.

Não me lembro exatamente como sai do lado da poça que era o Superdínamo e nem como Bailey estava sentada ao meu lado com uma toalha, me enxugando do que parecia ser uma gosma negra de cheiro cítrico.
Visão também estava diante de mim, analisando o líquido viscoso.
– Não parece afetar ninguém além do Frank.
– Deve…a fraqueza do Frank – eu consegui dizer, recuperando os sentidos.
– O que é essa gosma? – Bailey não parou de me enxugar. A toalha branca já estava enegrecida.

– Não sei exatamente, mas parece ser um composto… – Visão parecia confusa.
– O Frank usava no traje…tinha esse líquido. Protegia o corpo dele dos poderes – eu disse, esfregando os dedos sobre meu punho direito.
– Então foram os poderes dele que derreteram ele? – Bailey perguntou, mas todos sabíamos que era a verdade.
O culpado conhecia tanto o Superdínamo que até mesmo sabia da fraqueza desconhecida por nós, da divisão de Supers.

O chefe entrou na sala de interrogação e fechou a porta. Acenou para Bailey e Visão, ambas saíram imediatamente.
Pela postura do Chefe, achei que ele iria me esmurrar ali mesmo.
– Peter, você tá bem? – perguntou. Não respondi – Acho que precisamos repassar os detalhes desse caso.

Ele pegou uma cadeira.
– O filho da mãe teleportador estava na câmera o tempo todo, Peter. Não foi ele.
– A lista de suspeitos…já não é algo pessoal com cada heroi. É um serial killer, mas o padrão, não vejo um padrão – disse, colocando a toalha suja de lado.
– Com a Lara eu pensei que o problema foi descuido dela. Era uma heroina muito nova. Mas Jonah, e Frank. São dois veteranos, um vilão comum não teria feito isso.
– Foi um heroi – afirmei, resoluto.
– Como no caso da Valquíria. Peter, o assassino vem de dentro – O Chefe baixou o volume da voz – Não avisei ninguém ainda, mas eu tranquei o prédio inteiro. Até as janelas estão com a tecnologia…

– Eles vão pirar, Chefe. Não vai…
– Escuta aqui, garoto. Estou vendo cada dia um colega diferente morrer, eu não to a fim de ver mais um corpo porque nós não quisemos deixar o pessoal pirar – levantou o dedo indicador contra mim. Assenti com a cabeça – Quem eu mandei vai chegar pela entrada do subsolo. Fique invisível e vá pra lá, vou dizer que você ficou aqui se recuperando.

Resolvi obedecer.

A delegacia dos Supers possui uma saída e entrada secreta localizada no subsolo, ligando diretamente ao sistema de esgoto da cidade.
O Chefe, eu e algumas poucas pessoas sabem sobre essa entrada. É o tipo de segredo guardado para situações como essa: havia um assassino entre nós, tinha certeza disso.
Mas quem seria? Quem teria nos enganado após tantos anos? Quem conhecia tanto nossas fraquezas a ponto de poder nos matar sistematicamente?

Uma grade de metal separava o porão do sistema de esgotos. Duas pessoas já me esperavam ali, então me tornei visível.

– Sabe que eu vou cobrar o dobro por ter de passar por todo o esgoto, certo? – Fagulha disse ao me ver. Seu amigo, Tattoo, apenas acenou com a mão direita.
– Claro, acerta depois com o Chefe – eu respondi.

Acho que eles perceberam no meu olhar que a situação era muito crítica.
– Como estão as coisas na comunidade Super? Quais notícias já se espalharam? – perguntei, quebrando o silêncio.
– Quase todas. Três herois mortos, mas ninguém sabe ainda quem foi o último a morrer na delegacia. Com ela fechada, daqui a pouco vai juntar uma galera ai fora – Tattoo cruzou os braços, as tatuagens negras percorrendo seu corpo.
– O que conseguiram lá fora? – perguntei.
– O ex-namorado vazou da cidade, mas não foi por ter matado a Capitã – Tattoo mostrou algumas fotos do cara acompanhado de uma mulher morena, embarcando num trem.
– Ele tava morrendo de medo da Capitã descobrir, ai ele caiu fora sem avisar ninguém com a namorada nova.

Seria uma situação engraçada se a Capitã Tormenta não tivesse morrido. Com aquelas fotos e informações de embarque, o cara estava fora da lista de suspeitos.

– Mais alguma coisa? – perguntei, sem esperança.
“Talvez eu possa ser útil agora” ouvi em minha mente. Atrás dos dois alguém se revelara: meu tio, o Telepata.
“O que faz aqui? Vão descobrir que você…”
– Que sou o Telepata? Os Vigilantes sabem faz muito tempo – Tattoo e Fagulha sorriram. Seu grupo de herois clandestinos tinha muitos mais contatos que eu imaginava – Mas reconsiderei a oferta de meu irmão, o seu pai. Vou para os Estados Unidos assim que te ajudar aqui.

Sorri, ele era o aliado do tipo mais poderoso: família.

Subimos as escadas invisíveis. Todo o pessoal estava no hall da delegacia: alguns irritados, principalmente Mago e Charque. Um queria a vingança de seus colegas mortos, outro queria ir a sala de interrogatório de Balthier e quebrar seu pescoço.
Eram os dois que estavam prestes a trocar socos, ali mesmo. Soltei o braço de meu tio e me tornei visível.

Começava a escurecer, ao mesmo tempo que as janelas estavam seladas, tornando as lâmpadas acesas as únicas fontes de luz da delegacia.

– Posso saber o que acontece aqui?
– Até que enfim, Peter, estava quase indo apagar os dois – o Chefe respondeu, a mão ainda sobre o coldre do revolver.
– Muito bem, eu quero a atenção de todos aqui – disse a todas as quinze pessoas concentradas no hall. Todos se calaram e se viraram para mim. Exceto Johnson, que não tirava o olho do monitor que exibia a sala em que Balthier era mantido.

– O ex-namorado da Capitã Tormenta estava viajando no momento do assassinato dela, comprovamos a inocência dele.
– Mas isso era óbvio, como um cara qualquer… – Mago me interrompia.
“Ele ainda não terminou de falar, garoto” o Telepata disse, reverberando suas palavras telepáticas a todos presentes. Me contive para não sorrir.

– Após um cruzamento de informações sobre os vilões, últimas missões da Liga, as formas que foram feitas os assassinatos…tudo indica que é um Super. Um Super que está aqui nessa delegacia.
– É aquele teleportador maldito! – Charque esbravejava com o punho para cima. Nunca entendi bem os poderes dele, mas ele parecia ser capaz de partir um homem ao meio.
– Balthier estava na câmera de segurança na hora da morte de Jonah – Johnson disse ainda sem tirar os olhos do monitor.

– É por isso que estou aqui. Vou descobrir varrendo a mente de um por um – o Telepata avançou. Ele estendia o braço em direção ao primeiro: Mago.  Colocou a mão na testa do heroi.
Charque estava muito tenso, parecia até mesmo que era ele que estava tendo a mente varrida.

– Ele s…ELE SAIU! ELE SUMIU! – Johnson levantou da cadeira, desesperado.

Foram milésimos de segundo. Telepata não teve tempo de terminar de varrer a mente de Mago. O som de explosão percorreu a sala, acompanhado de um vulto escuro: era o poder de Balthier.
Com a faca de caça erguida, ele teria atingido a jugular do meu tio se eu não tivesse percebido e me jogado na direção dele.

Senti o mundo acelerar e eu estava no andar de cima, nos escritórios de nosso departamento, entre as mesinhas. Uma pontada de dor no ombro esquerdo, coloquei a mão sobre ele e vi sangue.

– Ah, você está tão perto, detetive. Tão perto de descobrir, mas ainda é um fracote. HAHAHAHA, nem arma você carrega, que tipo de tira é você, homem invisível – o demônio teleportador estava na minha frente, portando duas facas de caça. Seu sorriso era medonho.

A dor me desconcentrou. Não conseguia ficar invisível.

Me levantei, pronto para lutar…mesmo que fosse sem meu poder.

Era uma noite longa que acabava de começar.

(Final no próximo capítulo)

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