O Caso da Tormenta – Fim

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Tarde Final

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“Então você é tipo um policial dos super-herois?” uma tia perguntou quando entrei pro departamento de Supers.
“Mais ou menos, tecnicamente o Departamento não faz parte da polícia em si” respondi da melhor forma que pude, mas já era tarde demais: eu era o policial dos super-herois para toda a família.
Não era o tipo de reação que eu esperava, ninguém ali se manifestava muito a favor da existência de gente com poderes andando pelas ruas, muito menos um membro da família sendo um Super.
Mas eles aceitaram isso da forma mais amigável possível. Isso foi antes mesmo de descobrirmos sobre nosso tio telepata.
Achei estranho, mas meu pai me explicou no natal seguinte:

“Não importa se você sobe paredes ou fica invisível, filho, apenas sabendo que você está fazendo o bem com sua habilidade deixa todos nós tranquilos”
Desde então eu entendi que queria fazer algo bom com meu poder. Hoje a noite é desvendar um assassinato e derrotar um teleportador.

Pressiono o ferimento no ombro, tentando me concentrar, mas Balthier saltou mais uma vez e sua faca passou a centímetros de meu nariz.
Sinto os meus dentes rangendo e com grande esforço consigo ficar invisível.

– HAHAHAHAHA, acha que vai me parar só porque conseguiu se esconder? – Balthier usou seu teleporte para a última posição onde estava visível, mas eu já havia me movido para longe.
Atrás de uma mesinha, a placa de um dos caras da papelada: ele não teria uma arma na gaveta, infelizmente.
“Justo agora não tenho nada comigo”

Uma caneta na mesa teria de servir. Joguei a caneca “melhor pai do mundo” para a esquerda e corri para a direita. Balthier é burro o suficiente para ir na direção da caneca e esfaquear o ar ao seu redor. Correndo eu consigegui chegar em suas costas e fincar a caneta em seu pescoço.
A dor no ombro impediu que eu conseguisse feri-lo. Ele simplesmente se teleportou para trás de mim antes do meu golpe e fez mais um corte: atrás da coxa da perna direita.

Consegui saltar para frente e escapar de mais uma facada, mas meu poder já não adiantaria de nada: mesmo invisível eu deixava uma trilha de sangue conforme eu mancava para longe do teleportador.

– HAHAHAHA, tão perto Invisível, tão longe – as facas tilintando uma na outra.
“Ótimo, agora vai fazer o discurso de vilão ” pensei, procurando por qualquer coisa que me desse o mínimo de vantagem. Fisgadas de dor na perna, o braço esquerdo já começava a ficar dormente.

Me virei, ele atacou mais uma vez mas sem se teleportar. Segurei as duas facas com as mãos, pelos cabos, sentia o sangue escorrendo do ombro para o chão.
Fechei os olhos, expandi meu poder…
– Ei! Me larga – Balthier se teleportou, eu e eles surgimos do outro lado do escritório. Ele usava o poder sem parar, éramos flashes naquela sala.
As facas estavam invisíveis, os dedos das mãos do teleportador começavam a sumir.
– Que tal nunca mais ver suas mãos, Balthier? – sorri com os dentes trincando de dor.

Ele arregalou os olhos. Era um idiota.

Levantei a perna esquerda e o chutei com a sola do pé. Super ou não, todo homem tem este ponto sensível no corpo.
Balthier caiu no chão, atordoado pela dor derrubou as facas no chão.
Vi que a escrivaninha de um dos funcionários do departamento estava caída e as gavetas abertas. Em uma rápida busca eu tinha um revolver calibre 38 na mão direita e a testa do teleportador sobre o cano da arma.
– Acabou Balthier…que tal explicar como não foi você que matou os três herois?

Talvez ele fosse burro o suficiente para tentar usar o poder mesmo com a arma. Eu que não seria tolo em não atirar se tentasse.
Quem seria mais rápido, a bala ou o o teleporte?

– Hahaha, maldito invisível. Bem que ele me disse que você ia ser um pé no… – ele estancou, parou de falar quando a porta do escritório foi aberta:
Charque, um brutamontes que já havia sido um heroi do governo, era quem havia aberto. Estava ofegante, punhos cerrados.
– Você está bem, garoto? – me perguntou e se aproximou. Ficou ao meu lado, encarando o teleportador que já não ria – Desgraçado, matou até o Superdínamo… – cuspiu em Balthier.

– Richard, você é o único que subiu as escadas? – perguntei, mira levantada.
– O único que te achou, garoto. O que vamos fazer com esse aí?
“Que tipo de pergunta é essa, cara? O óbvio! Prender ele…” uma nova linha de pensamento me atingiu. “Foi naquela missão em que vários vilões foram executados, Charque, que te tirou do mundo dos herois. Que ideia é essa de matar ele?”

Apenas olhei para ele, devia ter transparecido espanto.

– Eles vão prender esse demônio e ele vai achar outro jeito de escapar, matar mais gente e voltar ileso. Isso acaba agora – Richard levantou o braço direito. O segurei com meu braço esquerdo, praticamente dormente.
– Balthier, você receberá um julgamento justo e cumprirá pena pelos crimes que cometeu. Mas você não fez nada disso sozinho, quem te ajudou a escapar da cadeia?

Os instantes seguintes foram uma locomotiva de fatos. Era óbvio, era insano demais para acreditar.
O teleportador sorriu, olhou para Charque e começou a abrir a boca. O ex-heroi terminou de erguer o braço direito e um raio vermelho saiu de sua mão, liquidificando Balthier em uma gosma incolor.
Me virei com a arma e ele me deu um soco que me lançou na parede. A arma caiu próxima a mim.

“Marcas de estrangulamento, mas sem marcas de luta e resistência. Ferimento curado antes dela ser morta. Impacto assassinado com um golpe de alta força, no momento que sua invulnerabilidade não funcionava. Superdínamo consumido pela substância que era sua fraqueza. Tudo um trabalho vindo de dentro”

Charque se ajoelhou sobre a gosma que era Balthier, encheu a mão com a substância e após alguns segundos ela ganhava um tom avermelhado e consistência semelhante a carne.

Carne seca. “É o nome de heroi mais estúpido que eu já ouvi” pensei quando entrei pro departamento e vi a ficha de Richard. Ele tinha o apelido porque vivia comendo pedaços de carne seca.
Charque comeu a substância enquanto eu procurava pela arma no chão, sentia pontadas de dor na região das costas.
Quando terminou, eu estava com a mira levantada. Realizei o disparo mas ele se teleportou antes que a bala chegasse.

“O pior jeito de descobrir se a bala era mais rápida”

Ele me pressionou contra a parede com seu braço. A força extrema era seu poder oficial e ele havia adquirido o teleporte comendo o que havia sobrado de Balthier.
– Q-Quantos você matou, Charque? P-Pra fazer isso? – tentava dizer mas o ar não entrava nos pulmões.
– EU NÃO SOU CHARQUE – ele esbravejou e continuou pressionando com a palma da mão aberta. A parede atrás de mim já estava cheia de rachaduras – Eu vou voltar a ser um heroi, serei o cara que impediu Balthier de matar mais herois…
– F-Foi você. Você matou ela – disse, gastando o pouco de ar que ainda tinha.

Capitã Tormenta, a novata dos herois, abriria sua porta de bom grado para um veterano. Charque teria entrado no apartamento, esperado o momento certo e atacado ela. Ele poderia ter um poder absorvido para enforca-la sem as mãos? Teria usado o poder absorvido de alguém para curar os ferimentos que fez nela e ocultar evidências?
“Meu Deus…quantos ele matou afinal? Quantos ele absorveu? Esses poderes se mantém perpetuamente?”

Charque bufou. As narinas muito abertas tornavam ele num monstro de histórias infantis: Bicho-Papão deve ser um nome pior que carne seca.
Ele não negou minha acusação. Essa era a confissão que precisava e minha mão direita tinha sido mais firme.

Tornei o revolver em minha mão visível e disparei na perna esquerda de Charque.
“Ele não absorveu Impacto, ainda bem” pensei e rolei para o lado quando o brutamontes urrou de dor e colocou as mãos sobre o ferimento.
Fiquei completamente invisível, mas a trilha de sangue denunciava meu caminho. Richard se teleportou na minha frente e tentou um soco.
Desviei e me virei para a esquerda. A perna sangrando fisgava por conta da dor e eu não sentia o braço esquerdo.

Eu trabalhei muitos anos nesse prédio e conheci muita gente no departamento. Aprendi que o detetive deve conhecer a todos, até mesmo aqueles que ninguém presta atenção.
“A fiação nesse lado é uma droga, filho. Até eu tenho medo de quebrar essa parede pra arrumar qualquer coisa” o zelador tinha dito numa rotineira pausa para café.
Fiquei visível por um instante, o suficiente para que Charque pegasse uma mesinha e lançasse em minha direção.
Abaixei a tempo e ela voou para a parede.

Saltei na direção da mesinha e toquei na parede atrás de mim. “Encontrei” pensei, tive sorte.

– Acha que vai ficar impune, Richard? Acha que todos são idiotas para acreditar que o Balthier fez todo esse estrago? – dizia, usando meus poderes e tentando manter a concentração com minhas mãos ocupadas.
– Desgraçado, eu só precisava de mais um! – ele gritou e se teleportou para perto de mim, pisou na mesinha caída e a partiu em duas.

Fiquei visível, estendi o revolver com a mão esquerda e disparei…mas ele sumiu no ar e voltou a posição de antes. Socou minha mão e a arma voou para longe.
– Inseto, te vendo ou não, vou te esmagar – me segurou pelo pescoço e me tirou do chão. Sentia o aperto e não conseguia respirar, já podia ver as pequenas esferas negras em meu campo de visão. Eu perderia a consciência em segundos.

Eu ainda tinha uma mão livre. O cabo desencapado se tornou visível e eu coloquei a ponta no peito de Charque: eu senti a descarga elétrica, mas com certeza havia sido menor que a sentida por Richard.
Ele me soltou e eu cai no chão, o peito queimando.

– EU VOU TE ESMAGAR!!! – ele saltou, tentaria me matar numa pisada só.  Nesse momento Richard não mediu a força que possuía.
Rolei para o lado, aquela parte do prédio também tinha uma estrutura mais fraca: o chão cedeu, junto com parede, parte do teto e muito metal.

O céu estava cheio de estrelas, estranhamente limpo naquela noite. Sentia o corpo pesado, a visão escurecendo.
“Acho que fiz algo bom com meu poder…”

Fechei os olhos.

– …ele acordou! Peter? – o rosto de Bailey estava bem acima de mim. Quando abri os olhos me vi numa maca dentro de uma ambulância.
– Bailey…o que aconteceu? O Charque, ele… – ela apenas negou com a cabeça.
– Nós sabemos que o Richard é responsável pelas mortes. O Telepata localizou os pensamentos de vocês e os transmitiu para nós, quando alcançamos vocês o Charque já estava caindo do prédio.
Me sentei, estávamos bem de frente para a delegacia, muitos repórteres mantendo uma distância da fachada graças a barreira policial.

Eu vi o corpo de Charque sendo levado dentro de um saco preto. De alguma forma ele havia morrido por conta de tudo que caiu sobre ele.

Vi as bandagens em meu ombro e minha perna, além de todos os curativos pelo corpo.
– Descobri tarde demais Bailey. Se tivesse ligado os fatos antes teria impedido as mortes deles…. – Bailey apenas segurou meu ombro bom.
– Você deu seu melhor, e o impediu antes que mais gente sofresse. Imagine se esse monstro conseguisse o que queria. Vocês não são mais um escritório pequeno da polícia, Peter, a Divisão Supers agora pode lidar com problemas ainda maiores – ela parecia sincera. Havia me esquecido desse tom de voz de Bailey. Me faz lembrar os velhos tempos.

Mestre e Mago saíram da delegacia e se aproximaram dos repórteres que se aglomeravam com seus microfones e câmeras. Todos queriam ser os primeiros a ouvir os grandes herois do governo e sua resposta sobre o Assassino de Herois.
Mago ocultava seu rosto com seu capuz, mas Mestre não usava máscara e era nítido o olhar pesado e cansado nele. Se eu me sentia falho naquela noite, ele se sentia o pior dos herois.

“Garoto, desculpe não me despedir. Tenho de ir embora logo, agora que sabem quem eu sou e o que faço” recebi a mensagem telepática de meu tio.
“Se cuida tio. Tente não se meter em confusão de novo” respondi.

– Eles querem te entrevistar, Peter! – Visão se aproximava, parecia ocupada, mas não deixou de correr para me dar um abraço rápido.
Me aproximei dos repórteres, menos deles se aglomeravam para me entrevistar.
– Detetive Peter, ou melhor dizendo, o Homem Invisível. Como se sente após o término de um caso tão difícil onde um membro da corporação se mostrou ser o culpado?
Eu gostaria de dizer que tínhamos todos falhado desde o momento que ninguém deu duas olhadas na ficha do Charque pra descobrir porque ele sempre era visto comendo carne seca entre as missões. Que fomos lentos em descobrir o culpado, o que levou três herois a morrerem nas mãos do assassino.
Mas eu apenas disse:

– A justiça foi servida pelo nosso departamento hoje. Sinto que precisamos de um longo descanso hoje antes de continuar a trabalhar amanhã – apenas disse isso e dei meia-volta. Fiquei de frente para Bailey, parte do cabelo loiro colado em sua testa.
– Sabe o que eu adoraria agora, oficial Bailey? – perguntei
– Uma grande caneca de café?
– Café – entramos na delegacia. A máquina de café ainda deveria estar funcionando.

Mais casos viriam no futuro, bons e ruins. A cidade de Nova São Paulo precisava de muito mais do que herois.

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