Colosso

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O Colosso esperava. Seu artesão havia lhe construído para que soubesse esperar por séculos e eras.
Décadas desde que foi criado pelo artesão, esperando seu propósito.

Ele guardou a ponte de Roktar por quarenta e sete anos até o dia da Decaída.

Agora aguardava a mesma criança que o despertara. A floresta não permitiria que o colosso andasse sem fazer barulho, então seu mestre mandou esperar.
Com a espada fincada no solo e mãos sobre o cabo da arma o Colosso era imóvel.

Monólitos ambulantes como o Colosso não possuem pálpebras para fechar os olhos, mas ele submergiu em seu sono profundo quando seu mestre disse:

– Pode ficar tranquilo Grandão! A gente já volta – Seu mestre nunca mentia.

Os gritos despertaram o Colosso.

O Monólito arrancou a espada do solo e girou, procurando a origem dos berros.
– Corre! Corre! – ouviu a voz do pequeno mestre e do amigo do garoto. As crianças surgiram de dentro da floresta.

O construto desceu a espada nas árvores enquanto os dois garotos passaram. Árvores tombaram juntamente com os monstros que perseguiam os dois.

Ofegantes eles gritaram de felicidade quando o Colosso deu meia-volta, segurou os dois com sua mão de pedra e os colocou sob seu ombro direito.
Largos passos e o Colosso já estava longe da ameaça.

O mestre comemorava o espólio de sua busca erguendo o punhal.

O Colosso virou a cabeça e encarou o mestre.

– Desculpa Grandão. Achamos que a floresta tava limpa – disse o mestre. O construto virou a cabeça para frente, tendo a Vila como destino.
– Pedro, acha que consegue usar o punhal? Tipo, pra valer!? – o amigo do mestre perguntou.
– Não sei Alan! Vai pra coleção de qualquer jeito – O mestre erguia o punhal, orgulhoso. Alan parecia igualmente animado.

A Vila, um vilarejo sobrevivente da Decaída, seu nome perdido na catástrofe. Nenhum sobrevivente tinha mais de sete anos no dia fatídico e muitas coisas sobre aquele mundo foram esquecidas.

O Colosso se agachou e colocou os dois no chão com cuidado.
– Até mais tarde, Grandão. Dispensado! – Pedro gritou ao amigo construto, se dirigindo ao portão de entrada.

Os dois guardas, os Gêmeos, baixaram as lanças e abriram o portão. O Colosso se virou e foi de encontro aos colegas que se posicionavam ao redor da Vila.
A comunicação entre colossos é silenciosa e somente os movimentos mais bruscos dos gigantes podem ser ouvidos. Cada um dos construtos formava uma coluna no círculo de pedra que protegia a Vila.

Nenhum Colosso dormia. Para guardar a Vila e seus mestres eles mantinham-se acordados e atentos em sua imobilidade.
Eles podiam escutar a agitação no vilarejo.

As crianças estavam agitadas e as notícias não eram boas. Cabia a Jonas, o Ancião, mediar a situação.

O Colosso sabia que os humanos vivem muito menos que os seres de pedra como ele, seu mestre possui nove anos. O Ancião, o mais velho sobrevivente da Decaída, tinha catorze anos.

– Eles tão chegando! – gritou uma menina de tranças.
– Vão pegar a gente! – um menino chorava enquanto dizia.
– Vamo fugir – propôs outra criança.

Todos os colossos compreenderam os pedidos de calma do Ancião mas as crianças discutiam entre si. O gárgula de Jonas rugiu, trazendo o silêncio.
– Vamos mandar os colossos na frente. A gente vai limpar a floresta dos monstros e ai a gente continua na vila. O mundo lá fora tá pior que aqui – Grandão assentiu com a cabeça enquanto olhava para o horizonte. Os colossos a sua direita e esquerda pareciam concordar.

– Quando vamos limpar a floresta? – O colosso reconheceu a voz de Pedro.
– Somente os colossos vão – Jonas replicou.
– Ha, e acha que eu vou ficar aqui parado enquanto meu colosso chuta o traseiro gordo dos monstros?
O colosso emitiu um som grave de rochas se atritando uma com as outras. Era a risada do construto.
Rir era algo que ele aprendera com o garoto. O artesão havia lhe ensinado que seria sua obrigação cuidar e se importar com seu mestre, até mesmo compartilhar de sentimentos se necessário.
Grandão nunca compreendeu se o Artesão sabia o que iria ocorrer com o mundo.

O colosso não havia conhecido nada antes da Decaída. Pedro lhe contara que antigamente haviam muitas coisas divertidas que foram perdidas quando os adultos começaram a se tornar monstros.

Os colossos eram crianças também.

A reunião terminou com o início do pôr do sol, o laranja tocando o horizonte pela última vez naquele dia.
Na noite o colosso sentiu algo cutucando sua perna direita: já sabia quem era, baixou a mão gentilmente. Colocou Pedro em seu ombro direito.

O garoto se deitou e colocou as mãos atrás da cabeça. Observava as estrelas enquanto seu Colosso observava a floresta e qualquer coisa que surgisse dela.
A manhã veio com o sol sem nuvens, aquecendo a pedra fria do qual o colosso era formado.

Os colossos começavam a se posicionar, seus mestres em seus ombros. A discussão até o momento não havia convencido nenhum deles a deixar seu colosso atacar sozinho.
Jonas e seu construto, o Maior, lideravam o grupo. A terra tremia com os passos dos colossos. Sua gárgula guardava o interior da Vila.

Árvores eram destruídas conforme os construtos pisavam sobre ela.
– Fica de olho Grandão, se ver um monstro pode pisar nele – Pedro colocava a mão sobre a testa para cobrir os olhos do sol.

A incursão avançou para dentro da floresta, os tremores despertavam os monstros como um formigueiro. Mortos-vivos se agrupavam e tentavam escalar uma perna de colosso até que a mesma se erguesse para o próximo passo e os jogasse para longe.

– Uma trincheira, a partir daqui! – o líder gritou e seu colosso ergueu o braço direito e começou a cavar. Seus companheiros fizeram o mesmo, enfileirados. A linha de terra cortava a borda da floresta e a separava do resto dela.
– Colossos, esmaguem os monstros.
Os grandes monólitos deram meia-volta e começaram a pisotear os mortos-vivos mais próximos.

– Eu não gosto de ficar…esmagando eles. Sempre aparecem mais – Pedro olhava para o pé de Grandão derrubando quatro árvores e os monstros que estavam entre elas.
– Pedro! Já foram uns quinze – Alan gargalhava sobre o ombro esquerdo de seu colosso.
Duas horas se passaram até que nenhum monstro fosse visto naquela seção da floresta.

Grandão viu o colosso de Alan o baixando até o chão.
– Ei! Volte pro seu colosso! – Jonas gritou do alto
– Ah, não tem mais ninguém aqui. Pedro, chega aí! Deve ter mais daquelas coisas que você gosta de colecionar.

Não houve reação: pele grudada aos ossos, o pulmão esquerdo exposto por um grande ferimento e um elmo de ferro completamente enferrujado.
Alan tentou se virar para correr mas o monstro já tinha segurado seu braço esquerdo e fincado os dentes. O grito estridente do garoto despertou o colosso de Alan e com seu dedo indicador ele esmagou o monstro.

Grandão não conseguia deixar de imaginar como o colosso se sentia agora, segurando seu mestre convulsionando na palma de sua mão de pedra.
Ele apenas se aproximou e viu a criança, sem vida, na mão do construto.  A resposta foi um soco do colosso enlutado.
Pedro se segurou como pôde, o impacto quase derrubou Grandão, e gritou para Jonas ajudar.

– Colosso 14, desativar! Desativar! – o líder tentava desativar o construto, mas a perda do mestre havia lhe feito perder qualquer indício de sanidade.
Grandão devolveu o golpe com seu soco, o irmão de pedra estava fora de si e poderia machucar outros mestres.

– Caramba, porque não trouxemos as espadas? – Pedro se segurava no ombro do seu colosso. Grandão correu e com o impulso jogou o braço na direção do oponente.
Outros colossos se juntaram a batalha, segurando os braços do colosso enlouquecido.

– Grandão…você vai… – Pedro viu seu colosso erguer o braço direito e fechar o punho de pedra.

“Me perdoe irmão” o monólito não poderia dizer as palavras, mas os olhos de pedra do irmão lhe comunicavam.

O soco de Grandão no peito desprotegido do colosso foi forte o suficiente para perfurar o casco de pedra do colosso. Com o coração do irmão no punho, puxou os cabos de aço. Faíscas e diversos componentes metálicos voaram, tudo na mão de pedra de Grandão.

A tumba do Enlouquecido foi feita bem ao lado da de Alan.

Pedro passou algumas semanas sem falar com Grandão ou com os outros garotos da incursão. A vila fez o funeral como pôde e escreveu o nome do amigo no mural reservado a todos que já tinham partido.

– Não importa se a gente é criança, o mundo não liga pra isso…Grandão, tá tudo bem, eu não tô mais bravo.
O colosso se abaixou e segurou o garoto em sua mão de pedra.

O espaço vazio no círculo de monólitos, antigamente preenchido por Enlouquecido, era um lembrete do que a floresta guardava.

– Um dia vamos atravessar a floresta, ver o que tem lá fora…eu prometo – Pedro olhou para o punhal e fechou os olhos.

Mestre e Colosso caíram no sono.

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