Éramos Ronin

Jirou pegou o chá cuidadosamente: o líquido tremia mas ele mantinha seu rosto imóvel.
– É uma honra finalmente conhece-lo, Akechi-san – o homem a sua frente exibia um grande sorriso enquanto vertia o chá.
“O que este pivete veio fazer aqui? Debochar de mim? Ou veio pela recompensa?” pensou Jirou ao experimentar a bebida.
– Ansiava por encontrar o segundo filho da casa Akechi. Os samurais de sua família possuíam uma excelente reputação em Kyoto.
Jirou encarava o homem de rosto jovial.
– Minha história também deve ser muito contada por lá, senhor – Jirou colocou a bebida sobre a mesa. A katana repousava ao seu lado no chão.

– Com certeza, Akechi-san, mas infelizmente só é contada uma versão da história. Desejo conhecer o que o próprio autor acha dela.
Akechi Jirou ficou parado por alguns instantes: “Este homem é louco ou é o assassino mais curioso que já pisou nesta espelunca” pensou.

– Eu sou o segundo filho do lorde Akechi Mitsutsuna e servia ao Imperador como seu agente pessoal. Nasci e cresci para ser um samurai…
– Gosto de sua origem, Akechi-san, um filho de uma casa importante servindo ao Imperador em perigosas missões de diplomacia, infiltração e combates ferrenhos…interessante, como era o Imperador naquela época? – o jovem continuava a beber o chá. Jirou sentia os olhos embaçarem.

“Mestre, quantos anos…quantos anos fazem desde aquilo?”

– Ele…ele era um homem digno de ser servido. Nosso país nunca teria uma paz tão duradoura se ele não estivesse nos governando. Cada palavra era uma palavra sábia… – Jirou fechou os punhos.
– Há quem diga que o Imperador chorou no dia de sua partida, Akechi-san – o jovem interrompeu.

Jirou se ergueu segurando a katana:
– Vieste aqui para zombar de mim, garoto? Acha divertido caçoar de um homem desonrado!?
– E o que lhe trouxe desonra, Akechi-san? Qual crime cometeu para que se sinta tão ofendido? – o tom grave na voz do jovem não fez Jirou relaxar a postura.
– Orochi-san, meu irmão, ele…ele me convenceu de que o Imperador não era um homem de honra. Nosso clã merecia mais do que tinha, nós servimos Kyoto por tantas gerações…ele me disse que o Imperador nos temia, que poderíamos ser tão poderosos quanto o clã dele.
– A revolta que gerou a Batalha da Cobra: seu irmão liderou o clã Akechi na tentativa de derrubar o Imperador do trono.
– Eu não estava nela, tinha mentido ao Imperador e entregado os segredos de meu mestre – Jirou sentia o rosto ficando cada vez mais quente, como no dia do incêndio no castelo.

“Por que estou contando meus crimes a este garoto? Todos sabem o que eu fiz, qual é o objetivo desse louco?”

– Orochi morreu naquela noite, você fugiu e seu título de samurai foi retirado. Foi uma noite sombria, Akechi-san – o jovem se levantou.
– Sabe minha história, agora vá! Antes que eu me arrependa – Jirou apontou para a porta do casebre.
– Tenho um objetivo aqui, Akechi-san. Há uma recompensa para a sua cabeça.

“Eu sabia! Um assassino” pensou Jirou.

O ex-samurai tirou a katana da bainha e apontou para o jovem. Antes que fizesse o movimento de corte sua lâmina havia sido bloqueada.

– Teus crimes são tão graves, Akechi Jirou, que ninguém pode pagar pela recompensa que é exigida por sua vida – O jovem mantinha sua katana junto ao corpo. Num movimento suave ele empurrou a espada para frente e bateu com as costas da arma na mão de Jirou, jogando a katana do ex-samurai para longe.

– Então tome seu prêmio, este é o preço de um ronin, não é? – Jirou sentiu as lágrimas caindo sobre seu rosto.
– É por isso que é chegado o tempo em que meu pai chama seus ronins para casa – o jovem sorriu ainda mais, guardando a katana na bainha – O Imperador me enviou, meu pai sente saudades de seu filho Jirou.
O ronin arregalou os olhos e deu um passo para trás. O filho do Imperador jogou um selo de cobre para Jirou.
– Eu pagarei esta dívida com meu sangue. Mas não temas, eu estou contigo e retornarei depois.
– Não posso permitir que faça isso! – O ronin protestou.
– Não me recordo de lhe ter pedido permissão. Vá, é tempo.

Os sons de cavalos cortaram o silêncio do casebre.
– Vá a Kyoto, encontre-se com meu pai, há um cavalo ao sul na estrada – O jovem saiu do casebre sem o seu sorriso.
Jirou escutou o som de espadas e aço quando saiu correndo pela porta dos fundos. As lágrimas embaçavam sua visão mas ele prosseguiu na estrada até a capital.

As notícias da morte do herdeiro do Imperador rondavam toda a cidade.
“Ele irá me executar pessoalmente. Quem é o tolo que morre por um homem como eu?” pensou ao esperar diante da porta dos aposentos do Imperador.
O Imperador surgiu no alto das escadas de seu palácio: “Meu mestre está mais velho mas ainda tem o rosto benevolente. Como dizer o que aconteceu?”
– Filho! Ele te trouxe de volta – O Imperador desceu as escadarias e abraçou o ronin.
– M-Mestre, perdoa-me. Lhe servirei entre os empregados, meu lugar é como o mais baixo homem em seu reino… – Jirou chorava.
– Faremos um banquete hoje, filho. Akechi-kun voltou para casa, meu samurai perdido estava morto mas agora está aqui, vivo!
– Mestre…seu filho… – Jirou tentou falar.

– Akechi-san, você veio! – estupefato, o samurai via o herdeiro do Imperador descendo as escadarias – Tenha calma, não sou um fantasma – o jovem exibia em sua mão direita uma bandagem e uma recente cicatriz no rosto do garoto que ia da ponta do queixo até a testa.
– Então a recompensa… – Jirou sorria.
– Está paga. Muito bem, agora temos que vesti-lo com algo mais apropriado ao samurai da casa Akechi.

– Está pronto Akechi-san? Minha missão não será fácil, você passará por muitas aflições nessa estrada – O jovem herdeiro conversava nos corredores com Jirou.
– Sim, agora eu sei…devo contar sobre o que vi aos outros ronins. O Imperador os quer de volta, eles precisam conhecer essa verdade – disse o samurai ao chegar em seu arsenal.

– Ótimo, então ide Akechi-san. Vista o Uwa-Obi desta verdade e o Dô desta justiça – Jirou começava a vestir o cinto e o protetor do abdômen – Com seus pés calçados com a prontidão dessas notícias de paz. E quando inimigos tentarem lhe atacar com suas flechas inflamadas, use a guarda de sua katana com a fé que acredita em mim.

Jirou colocou o capacete e ajeitou a katana.
– Com o Kabuto da salvação que recebeste e a Katana do espírito que também ganhaste com as minhas palavras. Ide, Akechi-san, ide.

“Sim, Mestre. Eis-me aqui, eu irei”

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