Caos Rastejante – Parte 1

“O que é a esperança senão o sonho de uma alma desperta?”

Brian se virou na cama e pegou o celular – 3h30 da manhã –  se sentou. Sua cama ocupava quase metade do apartamento. Com a TV não restava mais do que um pequeno espaço para o banheiro e uma pia cheia de rachaduras na cerâmica.
– Você tem que dormir cara – disse a si mesmo – Se o chefe me pega pescando de novo eu to ferrado.
Se levantou e foi para o banheiro lavar o rosto, no espelho via suas olheiras e os primeiros sinais de perda de cabelo.

– O terror da mulherada – riu e se sentou na cama novamente. Pegou o celular e começou a olhar sua galeria de fotos.
– Ex-namorada, ex-namorada, galera no bar, ex-namorada…se eu apagar isso tudo não sobra nenhuma foto. Que saco – se levantou e ligou a televisão.
– Eu gasto quase todo meu salário num plano vagabundo de internet e TV a cabo e ainda fico com essa porcaria de imagem? – zapeou pelos canais: entre informações culinárias, propagandas duvidosas e notícias nada interessantes decidiu pelo último.

Sentia uma coceira na nuca, como se formigas a percorressem. Ligou a luz e olhou para a cama conferindo se não havia mais uma infestação de ácaro.

– Interrompemos a transmissão para um aviso do exército brasileiro…
– Que? As quatro da manhã?
Um homem fardado era exibido na tela, suas medalhas no peito reluziam com a luz forte do estúdio.

– Nessa madrugada do dia vinte e quatro de fevereiro o país é acordado por uma invasão, digo, por um incidente… – Brian tinha a impressão de que o olhar do militar mudava conforme ele falava, como se seu rosto começasse a derreter por um milésimo de segundo e se recompor em seguida.
– Permaneçam em suas casas, enquanto… – a fala do militar se confundia e era cortada como numa fita VHS corrompida – …o egípcio, o titereiro… – palavras se atropelavam .
– …a tempestade se aproxima. Que Deus tenha piedade… – as palavras entrepostas por outras – …os abençoe.

A programação continuou com feiras de artesanato e reportagens recicladas. Brian desligou a televisão e começou a andar até a cama.

Bateram em sua porta duas vezes. Brian congelou, sentindo o suor frio descendo de suas costas.
Outras três batidas. Parecia que alguém arrastava algo contra a madeira. Vivia no terceiro andar de um prédio pequeno, não conhecia muito os vizinhos.
– Péssima hora pra pedir açúcar – o som de correntes na porta continuava. Olhou pelo espelho mágico. Nada além do corredor escuro de sempre.

Mas o som das batidas não cessava.

– Se for uma criança… – destrancou a porta e a abriu. Com a visão periférica notou um vulto acinzentado se movendo muito rápido pelo chão.
Decidiu seguir o vulto pelo corredor usando seu celular como lanterna.

Em frente as escadas o vulto sumiu, mas Brian notou que não era o único naquele prédio acordado.
Uma mulher estava sentada abraçando os joelhos com seu rosto encolhido.

“Não devo ser o único tendo uma noite horrível” pensou ao se aproximar da mulher. Se agachou e colocou a mão direita sobre o ombro dela.
Ela ergueu a cabeça lentamente. Brian arregalou os olhos como se eles quisessem saltar.

No lugar do rosto haviam inúmeras correntes de ferro, cinzas num tom tão claro que poderia ser confundido com prata. As correntes se moviam e se chocavam no lugar de pele, olhos ou nariz. Uma abertura onde ficaria a boca se formou e o som estridente de metal se chocando com metal inundou os ouvidos de Brian.

Ele tropeçou para trás e começou a correr em direção à sua porta. Sem olhar para trás alcançou seu apartamento e fechou a porta com tanta força que poderia acordar todo o prédio em uma noite comum.

Trancou e ficou com as costas pressionadas na madeira. Sentia o coração bater forte enquanto balbuciava alguma reza que lembrava da infância.

– Eu vou acordar, eu vou acordar, não se preocupe que eu vou acordar…

A TV ligou sozinha na mesma transmissão do militar. O som das correntes crescia junto do relato alarmante.
Brian fechou os olhos com força enquanto ouvia da televisão:
– Abandonem toda a esperança…abandonem suas casas…abandonem suas posições soldados. Brian! BRIAN ACORDE!

Ele abriu os olhos mas não estava em seu apartamento. Ainda era escuro mas o jovem reconhecia aqueles uniformes, capacetes e o lança-chamas que segurava nas mãos: elementos dos jogos de guerra que conhecia.

– Essa guerra não vai ser ganha enquanto fica cochilando soldado! Vamos! Se levante. O QG ordenou que avancemos – mandou o sargento.
– O que? Não, deve haver um engano, como… – notou que estava falando inglês como se fosse sua língua nativa. Os anos de curso jamais trariam essa fluência.
– Já está com medo de usar o brinquedo novo, Brian? Ontem você estava todo feliz por poder queimar os japoneses – comentou outro soldado.

Brian pressionou os olhos com força novamente.

Ao abri-los ainda estava naquela floresta. Começaram a marchar.

 

Fim da Parte 1

Parte 2

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