Caos Rastejante – Parte 2

Parte 1

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Brian percebeu rapidamente a realidade da qual os jogos não abordavam: a guerra era um tédio.
Longas horas de caminhada intercaladas com pequenos instantes de terror.

Não chegou a usar o lança-chamas ou disparar com alguma arma pois não encontraram inimigos para interromper o trajeto.
Algumas armadilhas e minas improvisadas criavam pausas de medo mas o esquadrão não sofreu nenhuma baixa.

A cada dia Brian se acostumava um pouco mais àquela realidade, seu corpo e rosto eram diferentes do que possuía no futuro mas tinha sonhos com as memórias dessa nova realidade: namoradas na escola em Kentucky, como foi dar a notícia aos pais de que iria lutar no Pacífico…
“Acho que só temos uma ex-namorada brava em comum, Brian Carter” pensou.

-Atenção! – o sargento líder do esquadrão parou o avanço – A Inteligência nos informou de que há uma pequena vila logo à frente. Estejam prontos para uma emboscada. Não quero juntar seus pedaços pra mandar pra casa.

– Mas que inferno, esses japas desgraçados. Não acredito que eles colocaram granadas no corpo daquele piloto – Mike, soldado raso, comentava com Brian sobre quando os inimigos armavam os aviões caídos.

O vilarejo era composto por diversos casebres de madeira característicos da região. A divisão de infantaria de Brian prosseguia lentamente: a cada esquina paravam e verificavam todas as saídas antes de virar para a próxima.
– Esse lugar me deixa com calafrios cara. Devem estar escondidos em alguma das casas – comentou Mike.
Brian apenas pressionava a arma com mais força.

– Brian, Mike, verifiquem aquela casa – o sargento ordenou. Mike carregava uma submetralhadora enquanto Brian mantinha seu lança-chamas.
A casa em questão era a maior daquela rua: toda feita de madeira e construída com cores douradas, ideogramas gigantescos a cobriam.

Brian entrou primeiro no salão. Muito iluminado e arejado. Hesitou quando não ouviu os passos de seu colega o seguindo.
Se virou e viu os soldados do lado de fora parados, congelados como numa foto.
Deu meia-volta e ergueu a arma, apontando para frente.

“Um velho?” notou que havia um idoso sentado numa pequena mesa, tomando chá e ignorando sua presença até o momento.
– Olá Brian, é um prazer finalmente conhece-lo – o velho falava em português com um sorriso tão branco que parecia uma pintura.
Eram os olhos dourados que assustavam o garoto.
– Q-Quem é você? E como…como você tá falando português? – ele não baixou a arma.
– É uma língua interessante a sua, parece meio cantada, sabe? Hahaha – o velho ria e tomava mais um gole de chá – Por favor, sente-se, você tem uma batalha pela frente e temos pouco tempo.

“Acho que me superei quanto a sonhos bizarros…” pensou andando e lentamente baixando o lança-chamas.

– Sua mente ainda está inteira, isso é bom. Pena que não é possível garantir isso no futuro.
– Você sabe o que tá rolando? Por que eu acordei aqui? Como…as correntes…
– Ele ainda está brincando com você. Ficaria preso por anos naquele pesadelo se não fosse pela minha interferência – o velho servia uma xícara de chá para Brian.
– Então foi você que me trouxe aqui!
– Sim garoto, e com a arma para combate-lo – o velho apontou para o lança-chamas – Caso sinta que a sanidade lhe abandona, lembre-se da cor dourada. Não permita que eles usem a máscara do Nobunaga.
– Que? – não conseguiu perguntar mais nada, se deu por si em pé na casa abandonada, Mike entrando e todo o mundo de volta a velocidade normal.

Só restara uma única xícara de chá.

– Eles estão no templo, a gente precisa ajudar. Se mexe! – o soldado puxava seu braço.
Os dois correram para o centro da vila, ouviam o som de disparos.
“Entocados num lugar só” pensou ao se aproximar da construção imponente que era o templo.

“A máscara do Nobunaga” sentiu um arrepio na espinha quando entrou na construção. Sentia o cheiro forte de metal e pólvora.
Os dois andaram entre os corpos de japoneses sem uniforme.
– Gente do vilarejo – comentou Mike. Os dois andavam lentamente, prontos para atirar.

No centro do hall estava um pedestal e o que sobrara da  divisão de infantaria.
O sargento estava coberto de sangue. Ele segurava um objeto metálico disforme no pedestal. Ao redor dele, os corpos de toda a companhia.
– Sargento Baker! Senhor… – Mike apontou a submetralhadora para o oficial.

Baker apenas se virou e colocou o objeto metálico sobre o rosto. A máscara se moldava a face do sargento e começava a se contorcer, os ossos do rosto de Baker se quebrando num novo molde.

Em vários moldes.

A máscara criava diversos rostos ao mesmo tempo:  um homem velho, uma mulher,  uma criança e assim por diante.
O sargento de múltiplas faces tirou a pistola do coldre e disparou em Mike. Descarregou o pente sem que ele reagisse a tempo.

– Gaijin – gritou o sargento com suas vozes.

Com os pés tremendo Brian ergueu o lança-chamas.
– Me desculpe – e pressionou o gatilho. As chamas foram lançadas como um jato de água, inflamadas o suficiente para que o sargento rapidamente fosse encoberto em fogo.

Os gritos das inúmeras vozes e seus rostos ficaram gravados na memória de Brian. A máscara derretia com o corpo de Baker.

Mas o som ensurdecedor de correntes interrompeu o torpor que aquela visão trazia.
Uma mulher vestindo um quimono rosa se aproximava. O som vinha dela.

– Não. Por favor não. De novo não – Brian largou o lança-chamas, dava passos para trás assim que ela se aproximava. Ele jogou o tanque de combustível no chão.
Ao ajeitar o cabelo ela revelava seu rosto composto por correntes cinzas.

Brian quase tropeçou ao correr da criatura. Notava com sua visão periférica como as correntes se aproximavam. “Cadê a saída!?”
Ela se colocava no caminho da saída principal do templo.

Diante do jardim nos fundos notou uma placa com ideogramas em dourado.

“Era pra pensar nessa cor, certo?” tomou impulso e saltou sobre o poço onde a placa se firmava.

A água era fria e ficava na altura de seu peito. O céu era coberto pelas correntes que tentavam adentrar no poço. Escuridão.
“É… Agora já era…Acorda Brian” fechou os olhos com força e sentiu o pé ser puxado.

A água turbulenta tomou todo o ar e consciência do soldado.

“O barulho…Sumiu…” pensou, ao despertar na água.

Tijolos rústicos, desgastados pelo contato com a água, formavam as paredes do poço.  O lodo deixava a parede escorregadia, dificultando a escalada. Levou algum tempo para chegar ao topo.

O ar estava seco. Brian sentia a garganta arranhar. Aos poucos foi se acostumando com a claridade do lugar.

– Só pode ser brincadeira comigo… – comentou numa língua que não reconhecia.
Fora do poço, via dunas de areia

Ao fundo via as pirâmides.

Fim da parte 2

 

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