O Caso da Tormenta – Fim

Dia 0
Dia 1
Dia 2
Tarde Final

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“Então você é tipo um policial dos super-herois?” uma tia perguntou quando entrei pro departamento de Supers.
“Mais ou menos, tecnicamente o Departamento não faz parte da polícia em si” respondi da melhor forma que pude, mas já era tarde demais: eu era o policial dos super-herois para toda a família.
Não era o tipo de reação que eu esperava, ninguém ali se manifestava muito a favor da existência de gente com poderes andando pelas ruas, muito menos um membro da família sendo um Super.
Mas eles aceitaram isso da forma mais amigável possível. Isso foi antes mesmo de descobrirmos sobre nosso tio telepata.
Achei estranho, mas meu pai me explicou no natal seguinte:

“Não importa se você sobe paredes ou fica invisível, filho, apenas sabendo que você está fazendo o bem com sua habilidade deixa todos nós tranquilos”
Desde então eu entendi que queria fazer algo bom com meu poder. Hoje a noite é desvendar um assassinato e derrotar um teleportador.

Pressiono o ferimento no ombro, tentando me concentrar, mas Balthier saltou mais uma vez e sua faca passou a centímetros de meu nariz.
Sinto os meus dentes rangendo e com grande esforço consigo ficar invisível.

– HAHAHAHAHA, acha que vai me parar só porque conseguiu se esconder? – Balthier usou seu teleporte para a última posição onde estava visível, mas eu já havia me movido para longe.
Atrás de uma mesinha, a placa de um dos caras da papelada: ele não teria uma arma na gaveta, infelizmente.
“Justo agora não tenho nada comigo”

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O Caso da Tormenta – Tarde Final

Dia 0
Dia 1
Dia 2

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O Chefe contou apenas uma vez sobre como acabou responsável pela nossa equipe de investigação.
Poucos conheceram Amanda, a filha de Smith. Ela ganhou os poderes na primeira geração de Supers: a Valquíria.

Antes da criação das leis em favor dos Supers, antes da população se acostumar aos herois, ela foi uma das primeiras a pegar uma máscara e sair pelas ruas combatendo o crime.
A mídia lhe tornara um monstro, um ser desconhecido que voava na calada da noite e deixava inúmeros assaltantes inconscientes no chão, danos em prédios e já ganhara uma reputação enorme entre a comunidade Super.

Somente a comunidade Super sabia quem era Amanda, o que ela defendia. Smith, o Chefe, era chefe de polícia e desaprovava a vida dupla da filha.
“Eu não falava com ela fazia muito tempo” lembro do Chefe dizer.
Foi somente quando Valquíria morreu que o mundo enxergou os Supers pela primeira vez.

Um assassinato brutal: forjaram um pedido de socorro num beco e cercaram ela. As marcas de bala de chumbo devem estar ali até hoje.
Alguém havia descobrido a fraqueza dos poderes dela.

Smith ficou desolado. O país inteiro ficou comovido diante de sua entrevista para o jornal das oito…as coisas começaram a mudar.
Eventualmente a equipe de investigação dos Supers foi criada e os responsáveis pelo assassinato foram presos. O Chefe está aqui desde o dia um.
E com certeza era o caso mais complicado desde então. Keep reading →

Noveau

 

A vitrola emitia o som do trompete. Uma música suave, colocada ali para acalmar o suspeito.

– Conte-nos mais sobre ela, senhor Fieldman – eu disse, com o bloco de anotações na mão esquerda e lápis na direita – Seja o mais detalhado possível.

O senhor Fieldman desviou o olhar. Não ousava olhar diretamente nos olhos de ninguém.

– Senhor Fieldman, o senhor está sendo acusado por homicídio… – Parker, meu parceiro naquele caso, perdia a paciência.
– Eu sei do que estou sendo acusado, senhores – Fieldman pegou seus óculos e colocou sobre a mesa.

– Então sabe que está em apuros. Se nos ajudar, poderá se provar inocente.
– Inocente? Ela não quer inocentes…

É difícil definir o que é realidade ou o que é devaneio no conto de Fieldman. Tentarei descrever o que entendi:

Tudo havia começado num sótão cheio de poeira. Fieldman realizava uma visita a uma casa de veraneio, localizada numa longínqua comunidade interiorana.

Havia comprado o imóvel por uma bagatela, um negocio suspeito no mínimo.
A casa de madeira, completamente isolada da estrada e localizada numa clareira ao lado de um rio foi vendida com tudo que havia dentro:
Mobília, obras de arte, livros…Fieldman não procurou saber quem era o dono antigo. Keep reading →

Ponto nulo

EUA, 1911

N havia finalmente achado uma época e um lugar para se estabelecer e finalmente ter sua aposentadoria. Agora morava no território de New Austin e se chamava Nathaniel. Era um bem sucedido dono de Saloon.
– Os tempos são novos Nathaniel, já ouviu falar das novas máquinas? Os carros?” o velho Will era um dos mais assíduos frequentadores de seu estabelecimento e já estava em seu terceiro copo de uísque.
“Sim, já ouvi falar e você não sabe como elas vão mudar o mundo” pensou N mas apenas se limitou a responder: -Já, aquelas bacias de ferro? Eu consigo andar mais rápido que aquilo.
Will cuspiu para o lado e pegou seu palito de dente.
Duas figuras diferentes entraram no salão. Usavam chapéus comuns de cowboy e o mais alto usava um poncho verde. O mais baixo parecia usar a mesma roupa a anos. A música não parou e ninguém os notou, mas N sabia que homens armados e estranhos podiam significar duas coisas diferentes: Foras-da-lei ou o Governo. “Sempre iguais” pensou.
O mais alto dos dois pediu uma dose de uísque para cada. N os serviu com tranquilidade.

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Cobaias de Lázaro

Quando um livro se torna real:

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O livro apresenta 14 histórias, aparentemente surreais e desconexas, mas interligadas de maneira surpreendente. Dez autores dão vida a diversos personagens complexos e intrigantes que estão participando de um experimento perturbador. Leia e descubra o que eles têm em comum.

Discutir um tema, definir os capítulos, pensar numa história, escrever, mais reuniões…posso dizer com certeza de que o mais fácil foi escrever os dois contos.
Criar um livro é um trabalho gigantesco, até mesmo um ebook, mas com certeza foi um trabalho divertido.

Cobaias é a primeira publicação do grupo Singularidades. O primeiro de muitos, é claro.

Se quiserem conferir o livro, acesse:

Amazon
Apple
Kobo

Confira o booktrailer:

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Ônibus

 Todo homem um dia viu
Mulher de olhos bonitos
Ou cabelo que eclipsava o sol
Algo que lhe atraia
Mulher de passagem
Passagem de ônibus.

Alguns homens sorriem para ela
Outros desviam o olhar
Temendo que os olhos dela encontrem os seus
Olhar gelado e desconhecido
A dúvida levando sua oportunidade.

Mas a maioria deixa que ela se vá
Desça no seu ponto e siga sua vida
Vida sem ela
E ela sem você

Se teria sido melhor ou pior

Cabe a sua imaginação.

Há uma rara exceção
Em que ela olha para ele
E ele olha para ela
E olhares se tornam palavras
Palavras se tornam encontros
E o amor nasce do ar.

Dessa exceção
Eu quero exemplos

Pois é belo ver como o amor surge

Sem arrependimentos.

O Caso da Tormenta – Dia 2

Peter Invisível
Dia 0
Dia 1

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Quando revelei ao departamento de polícia que seu mais novo recruta era outro dessa grande novidade que eram os Supers, haviam poucos eu poderia chamar de bons colegas.
A primeira reação natural é de temer o que é diferente, em seguida hostilizar.

Mas um dia vieram os Direitos dos Supers e as coisas finalmente mudaram pra melhor. Entre elas um novo sistema que registraria Supers e formaria equipes para que eles pudessem agir como herois. Desde o Evento que originou os poderes muitos já assumiam um manto de super-heroi, então esse sistema apenas oficializou muitos deles. A Liga seria a equipe mais famosa e antiga.

Jonah era o mais novo dessa primeira geração de herois. O mais novo agora tinha morrido numa rua deserta de uma noite qualquer.

Aquilo me revoltava.

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Prólogo e Epílogo

Esta noite morrerás
Esta noite sua alma será cobrada

Ébrio pensamento
E ilusão
Esta noite é o fim

Faz de conta que amanhã acordará
Grande ilusão

Hoje é teu fim
Involuntário
Jamais verá o céu da mesma maneira

Quando despertou
Não de um sono físico
Mas do sono de uma morte
Que lhe acompanhava desde o nascimento
Encontrou o que o mundo chamava de morte

Não aquela física
Da qual os humanos lhe colocam num caixão

Mas aquela que renega o mundo
E começa a peregrinação

Nada físico, isso é passageiro

Elohim

Flautista

Yaron suplicou aos céus por vingança durante cinco anos.

Cinco anos aceitando a repentina morte da filha e esposa. Clamava aos céus a vingança, o sangue do rei. Chorou amargamente.
Na noite chuvosa da invasão dos selvagens tribais. Na noite em que sua família foi morta. Yaron pegou seu equipamento e se alistou para a guarda do rei.

Antes da tragédia o flautista fazia parte de uma respeitada trupe itinerária que trazia teatro, música e um espetáculo famoso chamado “duelo de sons“. Ele estava em viagem quando a vila foi atacada.
Seus talentos o levaram a um cargo alto na guarda pessoal do rei.

Cinco anos depois. Era a noite perfeita para a vingança.

Yaron limpou a superfície da flauta com lentidão. “O rei morre hoje” disse a si mesmo outra vez. “O rei morre hoje pela minha flauta” terminou a limpeza e retraiu a lâmina alocada na extremidade. A flauta transversal estava pronta.
O flautista passou pelo pátio do castelo com rapidez e trocando acenos silenciosos com os guardas que conhecia, mas ninguém sabia que ele se movia para matar e não proteger.

– O exército inimigo se aproxima. Precisamos dessas barricadas prontas! Yaron! Yaron, bom te ver – gritou o capitão responsável pela guarda da noite. Lukha e Yaron eram amigos desde que foram recrutados.
– Vai assumir o posto agora, certo? Avise ao Jona pra não se esquecer de reforçar a muralha oeste. Este castelo não pode cair – Lukha parecia mais nervoso que o habitual.
– Pode deixar – o flautista respondeu secamente.

Música ressoou na muralha que levava a sala do trono. O sargento que dava ordens aos dois soldados que protegeriam a porta se virou bruscamente.
– Yaron? Que susto cara, achei que…
– Desculpe Jona – o flautista interrompeu com uma estocada rápida da lâmina do instrumento. A flauta brilhou quando surgiu da capa.

O ferimento no peito de Jona jorrou sangue, levando o guarda ao desmaio.
– Semínima – disse num tom inaudível.

Um dos soldados correu para a sala do trono e o segundo ergueu seu machado: estava tremendo de medo ao ver os olhos sem vida do flautista.
Acompanhados do som de trompa, guerreiros escalaram a muralha externa e atingiram o corredor, interrompendo o duelo.
Grupo de cinco selvagens, empunhando machados pesados e espadas longas, cercaram o flautista. Yaron ergueu o instrumento e tocou rapidamente uma escala maior.

– Semicolcheia… – sussurrou e liberou a lâmina da flauta. Girou e atacou o primeiro selvagem às suas costas com um golpe na garganta. Esperou dois deles se aproximarem para elaborar uma sequência complexa que secamente perfurou o crânio de um deles e rasgou a garganta de outro. Ensopado de sangue, não aguardou o fim do embate entre o guarda e o último selvagem.
– Mínima – perfurou o coração do bárbaro pelas costas e empurrou seu corpo caído contra o soldado. Com o lado sem a lâmina atingiu a cabeça do guarda. Todo o som que restava era o ofegante respirar de Jona, mas Yaron quebrou o silêncio com uma sequência sombria de notas.

Sangue pingava da flauta.

Toda a guarda pessoal do rei estava de armas em punho e aguardando. Grisalho e já avançado em idade, o monarca não parecia se importar nem com a batalha do lado de fora nem com sua vida sendo ameaçada pelo flautista.
Mas em seu coração o terror era inegável.

– Yaron. Se afaste! – gritou um dos conhecidos do flautista – Por…Por que?
– Eu espero esse dia por anos. Arrancarei teu coração hoje! – respondeu apontando para o rei.
Os guardas ergueram as armas e avançaram contra Yaron de uma só vez.
– Semifusa – disse entre os dentes. O rei apenas viu o sangue voar para cima.

Primeiramente, o sangue que pingava da roupa e flauta de Yaron voou com seu salto. Seguidamente o sangue do guarda mais próximo jorrou do ombro desprotegido e mais ainda foi liberado quando o soco atingiu seu rosto.
Na metade de uma respiração os outros dois cortes arrancaram as armas dos próximos guardas. Cortes horizontalmente perfeitos que iam da mão até a interligação entre o ombro e o pescoço.

O mais alto dos guardas saltou sobre o flautista com a lança, mas foi impedido no ar pela estocada seca da lâmina retrátil. Um golpe cirúrgico na pequena intersecção do corselete com a ombreira.

Quatro guardas restantes.

Terror estampado no rosto dos soldados, Yaron correu e numa sequencia em zigue-zague atingiu os pontos não vitais dos guardas.
O rei estava congelado ao ver o flautista com a lâmina erguida e virada para o alto. O frio se tornou ainda mais palpável quando ele desceu a lâmina até a direção do monarca.

– Qual o motivo Yaron? Quem é você realmente? – ousou perguntar sem se mover.
– Lembra da pequena vila ao norte? Aquela que decidiu abandonar a própria sorte? – o sangue respingava para os lados ao gesticular e andar na direção do trono.
– Mas o-o que quer…
– AQUELA QUE DEIXOU OS SELVAGENS INVADIR! MINHA FAMÍLIA! MINHA MULHER! MINHA FILHA! – esbravejou e subiu as escadas correndo.
– Velho maldito, já condenou tantos que está caducando? – um filete de sangue escorreu pela lâmina que estava pressionada no pescoço do rei.

Ambos fecharam os olhos e permaneceram ali por segundos intermináveis.
– Termine…termine logo com meu sofrimento – murmurou o monarca ainda de olhos fechados. Yaron abriu os olhos e encarou a expressão de dor do rei. Notou também o colar escondido debaixo do manto real: a estrela do norte.

“A música é paz garoto. Nunca a use para causar dor ou sofrimento. Vingança é um sentimento de tolos…” a memória o tirou do transe assassino.

Retraiu a lâmina e respirou ofegante. “…um dia vai entender garoto” a voz do mestre de música ainda era suave e grave como no passado.

– A minha vingança não vai ser essa – disse em voz alta para o rei que ainda estava de olhos fechados – Você vai apodrecer e encarar os fatos todo dia. Amaldiçoo você e toda a sua família, rei caído. Seu legado será esquecido e tudo ruirá…mas, mas o reino permanecerá unido e terá paz. Garantirei a paz.

Yaron levou a flauta transversal avermelhada até sua boca – É meu novo fardo – tocou uma sequencia de notas desarranjadas e dissonantes. Notas que atormentariam o rei para sempre.

A porta de entrada do salão se abriu repentinamente, um estrondo que obrigou o monarca a abrir os olhos.
Lukha, acompanhado por uma grande quantidade de guardas sujos de sangue, correu até o rei e se ajoelhou perante o trono. Os outros guardas atendiam aos feridos.
– O que houve Vossa Graça? Está ferido?
– Não. Mas estou condenado filho… – e colocou as mãos sobre o rosto, chorando amargamente.

Nos salões do velho castelo é possível ouvir as notas dissonantes até hoje.